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Little Tomodachi (ともだち)

Little Tomodachi (ともだち)

12
Jan23

Automutilação. Os adolescentes precisam de ajuda

Niel Tomodachi

A filha de Sónia deu recentemente entrada nas urgências, com um grande corte no braço que a obrigou a levar pontos. A de Armando marcou os pulsos com um x-ato e o pai ainda hoje dá voltas à cabeça para perceber porquê. Helena usou a lâmina de barbear do pai. Queria fugir à dor de um bullying mortificante. Um em cada quatro adolescentes portugueses já se feriu de propósito. E as sirenes disparam. Não estamos a fazer o suficiente para acudir ao sofrimento dos mais jovens, avisam os especialistas.

Sónia (nome fictício) lembra-se da primeira vez como se fosse hoje: o choque de chegar a casa e ver a filha deitada na cama, cheia de cortes nos braços, o sangue ainda ali à vista, o desvario que veio com aquela imagem desconcertante, antes que ela pudesse sequer parar para respirar fundo. “Fiquei possuída, confesso. Na altura, não entendi aquilo como um pedido de ajuda, mas sim como uma tentativa de chamar a atenção. E então passei-me. Dei-lhe uma palmada no rabo e depois ajudei-a a curar as feridas, mas sempre muito aborrecida.” O episódio tem anos, a filha, uma das três, estava então com 13 anos, entregue à adolescência, envolta num intrincado nó sombrio. “Enquanto criança, era extremamente sociável e popular. Os miúdos até se pegavam para ir às festas dela. Depois começou a recusar todos os convites e mais alguns, a deixar de querer fazer festas de anos, a fechar-se no mundo dela.” Por essa altura, já estava até a ser acompanhada por um pedopsiquiatra. Por causa de um episódio na escola envolvendo um bilhete com uma aparente mensagem suicidária, que levou a diretora de turma a chamar Sónia para lhe dar conta da sua preocupação. “Ela negou. Disse sempre que só se estava a referir ao facto de ir mudar de escola.”

Mas depois vieram os cortes. “Tentámos falar com ela, mas não dizia nada, ficava calada, nunca deu uma justificação .” E o coração de mãe a encolher, imerso num mar de dúvidas. “Entretanto fomos percebendo que havia uma questão relacionada com a identidade de género. Mas mesmo isso ainda não percebemos bem. Porque ela quer ser chamada por um nome masculino, mas quando lhe pergunto se, no futuro, quer fazer uma operação para mudar de sexo, ela diz: ‘Credo mãe, claro que não’. E noutras vezes diz que é só uma questão de pronome. De qualquer forma, nós nunca fomos castradores em relação a isso, nem em relação a nada.” Sónia vai divagando em ziguezagues, como quem continua à procura de explicações. “Sabemos que tem uma má relação com a irmã mais velha e que isso é parte do problema. Mas, se me pergunta se temos problemas em casa, eu acho sinceramente que não, que somos uma família normal. No outro dia, ouvi-a a dizer à irmã que, a dada altura, na escola antiga, chegou a sofrer de bullying. E eu pergunto-me: ‘Mas como é que nós nunca soubemos de nada? E será que isso também contribuiu?’.”

Sem respostas, e sem um guião exato para lidar com o problema, a família vai procurando “vigiar” como pode. “Tento estar sempre atenta. A minha filha do meio nisso também ajuda muito porque dão-se bem. Quando ela está a tomar banho e sabemos que anda mais nervosa, a do meio vai para a casa de banho também, tenta distraí-la, fazer conversa, ir espreitando. Percebemos que, volta a meia, quando anda mais nervosa, faz pequenos cortes, nas coxas ou nos antebraços, coisas discretas.” Mas, recentemente, a situação voltou a descontrolar-se. “Fez um corte muito grande no braço. Como não parava de sangrar contou à irmã e ela contou-me a mim, levei-a às urgências e teve de levar três pontos. Disse-nos que fez aquilo por causa de um pico de stress, motivado pelos exames da faculdade. Essa é outra coisa. Ela sempre teve excelentes notas, mas é extremamente perfeccionista e isso também não a ajuda.” Toma até medicação, “levezinha”, diz a mãe, para a ajudar a lidar com a ansiedade e a dormir melhor. Mas até ver não tem nenhuma outra patologia diagnosticada. E ainda assim Sónia continua a viver de coração nas mãos. “É inevitável pensar: ‘Agora é um corte, amanhã o que vai ser?’. É muito complicado. Ela já é acompanhada por uma psicóloga, por um pedopsiquiatra, eu também tento ajudar, mas ela fala pouco comigo. É uma sensação de impotência muito grande. É triste vermos um filho a sofrer e não conseguirmos fazer nada para ajudar.”

A angústia que aflige Sónia inquieta um número crescente de pais. A asserção é confirmada pelos dados apresentados no´último estudo “Health behaviour in school-aged children [comportamentos de saúde de crianças em idade escolar]”, realizado de quatro em quatro anos pela Organização Mundial de Saúde, em 51 países, entre os quais Portugal. A análise, conduzida pela equipa do projeto Aventura Social, em parceria com várias entidades, Direção-Geral da Saúde incluída, denota um agravamento da saúde mental dos jovens entre os 11 e os 15 anos (a amostra focada neste estudo), traduzido numa série de parâmetros com resultados preocupantes: 28% dos adolescentes sentem-se infelizes, 9% estão “tão tristes que não aguentam mais”, 21% sentem-se nervosos quase todos os dias (16% admitiram mesmo ter tomado medicação por este motivo no mês anterior), 9% sentem medo diariamente, 64,1% têm dificuldade em adormecer à noite. Em todos estes pontos, há um agravamento, quando comparando com os resultados obtidos em 2018 (ver gráficos). A própria perceção de infelicidade escalou quase dez pontos percentuais, dos 18,3% para os 27,7%. E é neste quadro negro que sobressai um outro resultado inquietante: um em cada quatro adolescentes portugueses (24,8%) já se feriu de propósito pelo menos uma vez, através de cortes, queimaduras ou outro tipo de lesões. Um número que traduz um aumento superior a cinco pontos percentuais face aos resultados de 2018 e que faz soar os alarmes.

 

“Se não fosse a minha mãe não estava aqui”

 

“É uma forma de os jovens lidarem com as emoções negativas e uma manifestação de mal-estar psicológico muito preocupante, que requer apoio especializado”, alerta Tânia Gaspar, coordenadora nacional do estudo. Sofia Ramalho, vice-presidente da Ordem dos Psicólogos, chama a atenção para um “agravamento do sofrimento psicológico na sua generalidade, que se manifesta em mais ansiedade, mais quadros de depressão, mais distúrbios alimentares e também mais automutilações”. No caso destas últimas, a especialista sublinha que tanto podem ser “sintoma de um problema de saúde mental”, nomeadamente de depressão, como uma situação “isolada e situada no tempo, que não implica a existência de uma perturbação subjacente”. Em ambos os casos, há “uma tentativa de autorregulação emocional e de autocontrolo da dor [psíquica] e da ansiedade”. E em ambos os casos está inerente “um sofrimento psicológico intenso”, que impõe a necessidade de uma “intervenção psicológica e especializada”.

Também João Bessa, da Sociedade Portuguesa de Psiquiatria e Saúde Mental, põe o dedo na ferida. “A questão não são tanto os números, porque esses dependerão sempre da metodologia adotada em cada estudo. O que me parece mais relevante é que este é um problema de saúde pública que está cá, que obviamente não se verifica só a nível nacional, mas que é preocupante, que tem que ser reconhecido e valorizado, e que exige a adoção de novas estratégias.” Até porque, lembra o psiquiatra e docente da Escola de Medicina da Universidade do Minho, apesar de os comportamentos autolesivos não terem, à partida, “uma intencionalidade focada no fim da vida”, são “um fator preditivo importante do aparecimento de comportamentos suicidários no futuro”. Para tranquilizar os pais que possam estar a ler estas linhas, vale a pena reforçar que a correlação não é obrigatória. Mas é mais um sinal de que o assunto é grave e deve inspirar cuidados e reflexão.

O caso de Helena Maia, 21 anos, é um bom exemplo disso. Pede que a chamemos pelo nome verdadeiro porque não se envergonha do que ficou para trás. E porque, repete uma e outra vez, quer muito poder ajudar outros jovens que estejam a passar pelo mesmo. Helena vive com uma depressão. Assume-o às claras. Toma antidepressivos e ansiolíticos (estes últimos só em SOS). E ainda assim diz com orgulho que se transformou, que conseguiu escapar do buraco onde viveu durante tanto tempo. Fala despachada, confiante, parece toda senhora de si. A história começa quando tinha uns 12, 13 anos. “Era muito gordinha, cheguei a pesar 105 quilos, e sofria imenso bullying. Desde ouvir coisas como ‘olha, vai ali a passar a gorda’ até fazerem rodinhas à minha volta para me humilharem e chamarem nomes.” Acresce que mal falava sobre o assunto. Os pais trabalhavam muito, ela também não se sentia à vontade para puxar o tema, tinha vergonha, começou a fechar-se em copas. E a espiral de sofrimento começou aí. Depois, veio a “inspiração”. Uma amiga que “andava sempre com a caixinha das lâminas” e que um dia se automutilou à beira dela. “Porque no fundo partilhávamos o mesmo sofrimento.”

Helena viu ali um possível escape para a dor. “Durante a noite, quando os meus pais estavam no quarto, fui buscar uma lâmina de barbear do meu pai e cortei-me no braço.” Lembra-se que chorou, que o alívio que achou que ia encontrar foi engolido por uma tristeza imensa, que se culpou e ficou ali abatida, a braços com um peso inultrapassável: “Como é que cheguei a este ponto?” E ainda assim optou por continuar a calar aquela dor, a sofrer em silêncio. “Durante duas semanas, tive que andar sempre preocupada em tapar os braços, em esconder, porque fiquei mesmo muito marcada.” Na altura, uma amiga mais próxima, que se apercebeu de que ela não estava bem, tentou apoiá-la. Mas os pais de nada souberam. Essa confissão, aos pais – ou melhor, à mãe -, tardaria ainda uns dois anos. “Curiosamente, até foi por causa de um comentário de um professor de Educação Física. Na altura íamos ter um corta-mato e ele, num telefonema para a diretora da escola, disse qualquer coisa como: ‘Não te esqueças que para a Helena tem de ser uma camisola maior.’” E aquela saída aparentemente desprovida de maldade deixou-a desvairada, como um gatilho que traz à tona o que tentamos a todo o custo remeter para as entranhas. “Fui-me embora da escola a correr, cheguei a casa muito triste, a chorar, enraivecida, tão enraivecida que dei um soco num vidro e tive de ir para o hospital, porque abri o braço todo. Levei imensos pontos.” Naquele momento, decidiu abrir o jogo com a mãe. Contar-lhe do bullying, do sofrimento, de como tentou fazer mal a ela própria. E a partir dali o jogo virou: começou a ter acompanhamento especializado, deixou a escola antiga, mudou-se de Matosinhos para o Porto. “Aí comecei a minha transformação.”

Tudo parecia estar por fim a entrar nos eixos. Mas com 18, 19 anos, nem sabe ao certo, teve um momento de desespero e tentou pôr fim à vida. “Tenho uma depressão e naquele dia não estava em mim. Acho que sofri tanto naqueles anos que acabei por ficar com uma série de traumas.” Mas prefere focar-se na parte boa da história. “Os meus amigos foram muito importantes neste processo. E a minha mãe também. Se não fosse a minha mãe não estava aqui hoje.” Por isso, faz questão de deixar um conselho a quem possa rever-se nas angústias que acedeu a partilhar. “Não tenham medo de falar. Se não quiserem falar com a vossa mãe ou o vosso pai, falem com outra pessoa. Numa fase inicial nós temos sempre vergonha, mas é o primeiro passo. O pior é sempre guardar.” E não termina sem dar graças por se dar hoje “muito mais valor à saúde mental”. “Há uns anos, quando eu andava na escola, ainda era uma questão muito subvalorizada. A minha mãe ainda hoje se culpa por não ter reparado antes na minha tristeza, por não ter conseguido apagar o fogo a tempo.”

A relação com os pais não é uma nota lateral nesta história. Tânia Gaspar, coordenadora do estudo que dá o mote para este trabalho, salienta isso mesmo. “O estudo fornece uma visão abrangente, em que tentámos ver a ‘big picture’. Por um lado, há a questão dos indicadores de saúde mental e bem-estar destes jovens; por outro, é percetível também um agravamento da relação com os pais, uma maior dificuldade de comunicação, uma perceção de menor apoio dos pais e de que a relação já não é tão positiva.” A psicóloga clínica destaca ainda dois outros pontos, que lhe parecem relevantes para uma interpretação mais ajustada: “Por um lado, a questão do aumento do uso das novas tecnologias.” Que em si mesmo não é mau, mas que pode ser preocupante na medida em que há um aumento da dependência e um aparente “enfraquecimento das competências socioemocionais” na socialização cara a cara. E há ainda a questão dos medicamentos. O estudo mostra que aumentou o uso do fármacos como espécie de droga, bem como a medicação sem prescrição médica. “E isto também inibe as competências para lidar com as coisas de outra forma. Todo este panorama acaba por pesar na questão da saúde mental e do bem-estar.”

A este quadro juntou-se, nos últimos dois anos, um outro fator que assume particular relevância no agravamento do estado emocional dos jovens (e não só): a pandemia. E tudo o que veio com ela. Diogo Guerreiro, especialista em psiquiatria de adultos e adolescentes e autor de uma tese de doutoramento datada de 2014 que foca precisamente a questão dos comportamentos autolesivos, ressalva que não há explicações 100% precisas “porque são sempre multifatoriais”, mas recorda que a crise pandémica, os confinamentos, o isolamento fizeram com que o aumento da prevalência da ansiedade e da depressão seja “avassalador em todo o Mundo”. Com natural repercussão ao nível dos comportamentos autolesivos.

“Estes comportamentos têm dadas funções. Por um lado, são uma forma de comunicação. Por outro, são uma tentativa destes jovens regularem emoções que não estão a conseguir controlar.” E o facto de os adolescentes se terem visto privados da socialização, a incerteza que veio com a pandemia, a instabilidade financeira e familiar redundaram numa espécie de “tempestade perfeita” para os potenciar. “Quando somos adultos, temos outras formas de lidar com a frustração, com o tédio, com os estados mais depressivos. Os adolescentes nem tanto. Até porque muitas vezes também há um efeito de contágio.”

 

“Para não lhe bater, parti-lhe o telemóvel”

 

Armando (nome fictício) não tem certezas, mas está convencido de que esse fator também há de ter contribuído para que, há uns meses, a filha (13 anos) tenha decidido cortar ambos os pulsos com um x-ato. “Creio que se inspirou numa colega da escola que passou pelo mesmo. Nestas idades as companhias influenciam muito.” Armando nem sabe bem por onde começar a desenrolar o novelo. Sabe que a filha sempre foi algo tímida, mas que se tornou mais introvertida com a entrada na adolescência. Sabe que a pandemia e a “telescola”, como lhe chama (neste caso, o “Estudo em Casa”), não ajudaram. “Se ela já passava muito tempo no quarto, começou a passar ainda mais.” Sabe que a filha foi ficando mais calada e mais murcha. Desconfia até dos animes (desenhos animados japoneses) que a filha começou a ver. “Eu não sei, mas acho aquilo muito depressivo.” Até que, um dia, a mulher recebeu um telefonema da mãe de uma colega da escola da filha. A avisá-la de que algo de estranho se passava. “Nesse dia, quando chegámos à beira dela, a mãe puxou-lhe as mangas da camisola para cima e vimos que tinha os pulsos cortados.”

“Não foi bonito”, reconhece. “Muitos gritos, choro, fiquei tão cego que, para não lhe bater, parti-lhe o telemóvel.” A reação imediata de quem é tomado de súbito pela frustração e a angústia. Pela incompreensão também. “Ainda hoje não consigo perceber.” Depois, com mais calma, tentaram conversar. “O passo seguinte foi procurar ajuda na escola, falar com os professores, pedir para estarem atentos. Nessa altura, começou também a ser acompanhada pela psicóloga da escola. Fomos insistindo no diálogo em casa, tentando puxá-la para sair mais, e as coisas foram acalmando.” Que se tenham apercebido, o episódio não se repetiu. “E ela até está mais comunicativa. Mas mesmo assim ando sempre de pé atrás. Porque quem passa por uma situação destas fica sempre desconfiado.” Tanto mais quanto Armando continua a deparar-se com umas quantas pontas soltas. “Ela nunca conseguiu explicar-nos bem por que razão o fez. Mas havia claramente inseguranças e falta de autoestima próprias de uma adolescente. Problemas com o corpo. Mas, caramba, eu também tive, quando era adolescente. Acho que todos passámos por isso e não andámos propriamente a cortar-nos com um x-ato.”

O desabafo de Armando toca num ponto relevante, desconstruído pela pedopsiquiatra Bárbara Romão. “Os jovens podem sofrer de uma forma mais internalizante, que é aquele sofrimento que provoca maior apatia, que puxa mais para estar deitado, ou mais externalizante, que é quando o sofrimento é exteriorizado. E hoje em dia o sofrimento mais comum é o externalizado. Já não há tanto aquela inibição de incomodar o outro, de não querer dar nas vistas, que se devia muito a uma educação mais autoritária. Neste momento, como o modelo parental mais prevalente é um modelo mais permissivo, isso faz com que o sofrimento seja mais externalizado. Mas também faz com que haja jovens mais narcísicos, menos gratos, mais exigentes, mesmo em relação aos próprios pais.” E, embora admita que a percentagem apresentada no estudo (um quarto dos jovens) a surpreende, não tem dúvidas de que “é um fenómeno crescente”, que atende cada vez mais jovens com “pequenos cortes” e que há um “agravamento enorme”, a todos os níveis. “A procura disparou com a pandemia. Já não estou a aceitar primeiras consultas porque não tenho capacidade de resposta.”

Ivone Patrão, psicóloga clínica e coordenadora do projeto “Geração Cordão”, aponta outros fatores, mais relacionados com a esfera pessoal, que podem pesar. “As questões relacionadas com a imagem corporal, os problemas ligados ao comportamento alimentar, as dificuldades na socialização e interação com o grupo de pares ou mesmo as disfuncionalidades familiares, tudo isso pode contribuir para que haja comportamentos autolesivos. Depois, os estudos dizem-nos que adolescentes com uma personalidade mais introvertida ou com características de um neuroticismo mais elevado estão mais sujeitos. Mas claro que isto não quer dizer que todos os miúdos introvertidos se vão cortar.” Chama ainda a atenção para outros dois pontos relevantes: o primeiro é que estes comportamentos são mais típicos nas raparigas, mas “também há rapazes a fazê-lo”; o segundo é que quando acontece uma vez, “a probabilidade de se repetir é grande”.

Hugo Tavares, pediatra no Hospital Lusíadas Porto, onde é responsável pela “consulta do adolescente”, também tem notado um aumento substancial do número de jovens que adota comportamentos autolesivos. “Os últimos tempos têm sido inacreditavelmente pródigos neste tipo de episódios.” O pediatra distingue três situações-tipo. “Há casos em que, quando nos chegam, já temos conhecimento de que estes comportamentos ocorreram; há outros em que os pais se apercebem que há uma mudança de atitude e depois, durante o exame da consulta, vamos dar com as marcas dos cortes; e há ainda aquelas situações em que não há qualquer indício percecionado pelos pais e acabamos por ser nós a descobrir.” Frequentemente, os pacientes tentam esconder, arranjam justificações, dizem que foi o gato que os arranhou ou invocam outra qualquer desculpa. Noutros casos, “até fazem gala disso”. “Há situações em que a questão é a transferência da dor psicológica para a dor física. E há outras em que o veem como um castigo que têm de cumprir. Porque se portam mal, porque só causam problemas à família, porque a escola não corre bem, porque os amigos não gostam deles. Seja como for, é sempre um sinal muito importante de perda do controlo, que nos deve preocupar. Porque dali para outras situações que põem em causa a vida pode ser um passinho.” Bárbara Romão também realça que estes fenómenos “nunca devem ser negligenciados”. “O mais importante é não desvalorizar. Uma automutilação pode ter vários significados, mas é sempre caso para consultar um especialista. E também é importante não culpabilizar, mostrar compreensão, comunicar.”

E num plano mais alargado, o que pode ser feito para reduzir estes números e cuidar da saúde mental dos mais jovens? O psiquiatra Diogo Guerreiro aponta alguns pontos cruciais. “É preciso falar mais, aumentar a literacia dos pais e dos professores, para que saibam reconhecer os sinais de alarme. É preciso que os próprios jovens saibam a quem podem recorrer. Tem havido um aumento brutal das patologias de saúde mental e, com os meios que temos, é muito difícil encontrar uma resposta cabal na rede. Tem de haver uma abordagem mais geral, que envolva a escola, a sociedade, em que os professores estejam à vontade para falar sobre estes temas, em que tenham ao seu dispor um kit básico de ferramentas para abordar o assunto, em não haja tabus. Há muito a ideia de que falar sobre estes comportamentos vai exponenciá-los, mas uma das medidas que mais eficácia tem é falar sobre eles.” Além do imperativo reforço da rede de psicólogos e pedopsiquiatras do SNS. Até porque, como lembra João Bessa, da Sociedade Portuguesa de Psiquiatria e Saúde Mental, o “sofrimento psíquico na infância e adolescência pode suscitar o desenvolvimento de patologia psiquiátrica na idade adulta”. Por isso, não tem dúvidas: “O foco de intervenção deve virar-se cada vez mais para estas janelas temporais que sabemos que são cruciais no desenvolvimento pessoal”.

Linhas de apoio

Apoio Psicológico integrado na linha SNS24
Horário: 24 horas por dia
Contacto telefónico: 808 24 24 24

SOS Voz Amiga
Horário: 15.30 horas – 00.30 horas
Contacto telefónico: 213 544 545 | 912 802 669 | 963 524 660

Conversa Amiga
Horário: 15 horas – 22 horas
Contacto telefónico: 808 237 327 | 210 027 159

Vozes Amigas de Esperança de Portugal
Horário: 16 horas – 22 horas
Contacto telefónico: 222 030 707

Telefone da Amizade
Horário: 16 horas – 23 horas
Contacto telefónico: 222 080 707

Voz de Apoio
Horário: 21 horas – 24 horas
Contacto telefónico: 225 506 070
Email: sos@vozdeapoio.pt

Vira(l)Solidariedade – Rede de Apoio Telefónico da Sociedade Portuguesa de Psicanálise
Horário: 08 horas – 00.00 horas
Contacto telefónico: 300 051 920

 
 

Source: https://www.noticiasmagazine.pt/2023/os-adolescentes-precisam-de-ajuda/historias/284402/

 

11
Jan23

Por que motivo ajudar os outros faz com que nos sintamos bem

Niel Tomodachi

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A explicação encontra-se no bem-estar eudaimônico. Descubra o que é.

 

Já se perguntou sobre o porquê de se sentir bem quando faz algo de positivo para outra pessoa ou participa de uma causa de caridade? A ciência determinou que é o bem-estar eudaimônico que explica este fenómeno. Realizar atos de bondade e ajudar os outros pode ser bom para a saúde e para o bem-estar das pessoas, de acordo com pesquisa publicada pela American Psychological Association no 'Psychological Bulletin'. “O comportamento pró-social (altruísmo, cooperação, confiança e compaixão) é um ingrediente necessário de uma sociedade harmoniosa para funcionar bem. Faz parte da cultura partilhada pela humanidade, e a nossa análise mostra que também contribui para a saúde física e mental”, disse Bryant PH Hui, professor assistente de investigação da Universidade de Hong Kong e principal autor da pesquisa.

“Os seres humanos são realmente projetados para serem recompensados ​​quando praticamos ações altruístas. O egoísmo é natural no ser humano e é necessário para a sobrevivência. Porém, quando fazemos algo pelos outros sem esperar nada em troca, é como se o cérebro nos recompensasse ativando a dopamina, a hormona da felicidade e do prazer. É por isso que algumas pessoas se sentem mais felizes quando oferecem presentes do que quando recebem,” explica Inma Brea, especialista em comportamento humano, coach e mentora de executivos e líderes organizacionais.

“Ser generoso deixa-nos felizes. É uma emoção que está associada ao altruísmo e à solidariedade. Faz-nos sentir orgulho de nós mesmos e dá-nos uma imagem de autoconfiança. Também gostaria de comentar o quão é importante poder ser generoso, mas também receber a generosidade dos outros. Alguém que é generoso fala-nos de independência, capacidade de agir (não só financeiramente), mas também de ser gentil, ensinar alguém, dedicar tempo a uma atividade... Ou seja, alguém que pode ajudar, mas também é importante saber ser ajudado" , acrescenta Alicia Reinoso, psicoterapeuta.

Existem pessoas que não conseguem fazer uma boa ação sem avisar os outros... Estamos a falar de alguém que precisa de aplausos? Inma Brea acredita que sim. “De fato, há pessoas que precisam ser reconhecidas como “gente de bem”, porque isso faz parte da sua identidade. Quando alguém tem necessidade de ser reconhecido socialmente por essa qualidade, realmente é capaz de esforçar-se muito para conseguir isso; é alguém que está sempre atento aos outros, pergunta sobre a família, oferece-se para ajudá-la nas mudanças, etc. Não é tanto pelos aplausos, mas por reafirmar a própria identidade”, explica.

“Claro que isto é uma faca de dois gumes, porque no fundo essa pessoa sabe que espera algo em troca: amor e reconhecimento. Portanto, por não ser inteiramente altruísta, gera uma certa culpa, inconscientemente, criando um círculo vicioso da necessidade de dar para receber”, esclarece a especialista em comportamento humano, coach e mentor de executivos e líderes organizacionais.

“Ser generoso deixa-nos felizes. É uma emoção que está associada ao altruísmo e à solidariedade."

“Como mencionei antes, estamos aludindo ao assunto da chapadinha nas costas, de poder ser feliz com o que faz, sem a necessidade do reconhecimento do outro. Mas isto acontece com absolutamente tudo, até com a saúde (há pessoas que comem de forma mais saudável quando estão com outras pessoas, ou que se cuidam pelo efeito que isso tem no corpo, não para elas mesmas, mas para os outros verem) . Neste caso, são pessoas que só têm o sentimento de valor ou de que algo que fizeram é valioso se alguém lhes disser ou reconhecer. No final, também pode ser um traço de insegurança”, comenta Alicia Reinoso.

“Outra possibilidade é ser duas caras. Só quando alguém me vê é que eu comporto-me bem, mas dentro das paredes da minha casa sou o oposto... Portanto não é uma generosidade desinteressada (que nunca é, porque faz-nos sempre bem sermos generosas), mas neste caso procura algo além do suposto gesto de generosidade”, alerta a psicoterapeuta.

As redes sociais estão a lançar cada vez mais ações com fins filantrópicos, por isso são uma ótima ferramenta para ajudar. A área de filantropia do Twitter, chamada TwitterForGood, em trabalha constantemente com ONGs e instituições de caridade para aproveitar o poder positivo do Twitter para tornar o mundo num lugar melhor. Eles fazem isto fortalecendo as suas comunidades através da sua plataforma, os seus funcionários e os seus recursos.

“No Twitter, estamos convencidos de que a conversa pública e a troca aberta de informações podem ser uma força imparável para o bem no mundo. Com base nessa ideia, a nossa missão filantrópica concentra-se em refletir e ampliar o poder positivo de nossa plataforma por meio de uma interação cívica, voluntariado de funcionários, contribuições de caridade e doações de publicidade pro bono ou de outra espécie. Desta forma, o Twitter pode promover uma maior compreensão, igualdade e oportunidades nas cidades e países em que atua. Os funcionários do Twitter estão envolvidos numa ampla variedade de causas e iniciativas filantrópicas, como resposta a crises e emergências ou alfabetização tecnológica, entre muitas outras”, explica a equipa do Twitter.

“Fortalecer as nossas comunidades faz parte de nosso ADN e esforçarmo-nos para unir a nossa empresa e comunidade como uma força para o bem social. E fazemos isto de uma perspetiva ampla, onde não apenas procuramos ajudar a arrecadar fundos, mas também garantir que as organizações possam usar o Twitter para alcançar comunidades vulneráveis ​​e divulgar o seu importante trabalho por meio de nosso programa #AdsforGood.social, no qual a filantropia está presente diariamente através do poder democratizante da plataforma e do altruísmo das pessoas que utilizam o seu serviço. Assim, eles arrecadam dinheiro para quem precisa, partilham causas que necessitam de apoio e mobilizam mudanças por meio de poderosos movimentos sociais.

 

03
Dez22

Matosinhos tem evento dedicado à saúde mental (com 'show' de Raminhos)

Niel Tomodachi

A iniciativa decorre durante a próxima semana.

Matosinhos tem evento dedicado à saúde mental (com 'show' de Raminhos)

primeira edição do programa de saúde Mental 'O Ativa'mente' decorre nas próximas terça e quarta-feira, 6 e 7 de dezembro, em Matosinhos, no distrito do Porto.

De acordo com a organização, o evento contará com 'workshops' da área dadas por responsáveis do Brain Research Institute, logo no primeiro dia. O momento "traz, às 10h e às 14h30, dois workshops que visam compreender a relação entre o cérebro e a felicidade e o cérebro e a liderança", segundo explica a câmara municipal.

De acordo com a autarquia, mais tarde, pelas 21h, haverá ainda uma sessão ao vivo de 'Somos Todos Malucos', com António Raminhos e alguns especialistas de saúde mental.

Já no dia 7, a câmara vai exibir o documentário 'Pára-me de repente o pensamento', de Jorge Pelicano. "Com o objetivo de desmistificar a doença mental, este é um documentário que retrata o período de pesquisa e construção de uma personagem, por Miguel Borges, enquanto acompanha as rotinas dos utentes do Hospital Psiquiátrico Conde de Ferreira, no Porto", descreve a autarquia numa publicação partilhada no Facebook. A película será exibida às 11h e 14h30.

As participações são gratuitas e decorrerão na Casa da Arquitectura, sendo apenas necessária a inscrição prévia através deste formulário.

O evento inclui ainda uma exposição dos "melhores momentos do programa", na qual haverá atividades sensoriais que mostram como é viver com os diferentes distúrbios do foro mental. A exposição pode ser visitada nos dois dias, sendo o horário de terça-feira das 10h às 23 e de quarta-feira das 10h às 19h.

 

21
Nov22

O Feiticeiro de Oz no gelo traz alegria e também ensina sobre saúde mental

Niel Tomodachi

Um espantalho desmiolado e um homem de lata muito romântico. Está feita a combinação perfeita para um serão com muita música e diversão. Em exibição a partir de 26 de novembro, “O Feiticeiro de Oz no gelo” promete encher de sonhos e alegria a tua época natalícia.

O objetivo principal deste espetáculo é promover a saúde mental infantil. Assim, prepara-te para acompanhar Dorothy e as suas peripécias enquanto tenta encontrar o misterioso Feiticeiro, ao mesmo tempo que descobres sobre o valor da amizade e a importância do amor-próprio. E no meio dessa aventura haverá de tudo um pouco: dança, teatro, patinagem no gelo, tecnologia e até alguns momentos de puro ilusionismo.

Miguel Cristovinho, dos D.A.M.A, e a cantora e compositora Rita Redshoes serão cabeças de cartaz deste bonito evento musical. Miguel dará vida ao Feiticeiro de Oz e Rita, por sua vez, interpretará Glinda. Mas atenção, o elenco não é fixo. Por isso, se os quiseres ver em palco tens de aceder ao site ofeiticeirodeoznogelo.pt e confirmar em que dias eles vão atuar.

Com sessões de aproximadamente uma hora, o musical conta com texto de Mafalda Santos, música original de Artur Guimarães e coreografia de Joana Quelhas. No elenco teremos ainda nomes como Nuno Martins, Inês Ramos, Luís Duarte Moreira e os patinadores internacionalmente premiados Filipe Galego e Diogo Craveiro.

Produzido pela Am Live, o espetáculo estará em cena até 8 de janeiro de 2023, no palco da AM Arena, no exterior do Mar Shopping Matosinhos. Garante já os teus bilhetes no site oficial ou na Ticketline e não percas a cativante aventura de Dorothy. Agora que tens todas as informações, fala com a tua família e amigos e embarquem juntos numa incrível aventura pela estrada de tijolos amarelos.

Bilhetes individuais:
1ª Plateia – 19,50€ normal | 17,50€ criança
2ª Plateia – 18,00€ normal | 16,00€ criança
3ª Plateia – 13,00€ normal

 

09
Nov22

É por isto que nos sentimos mais stressadas no outono

Tem-se sentido em baixo? Há uma razão para isso.

Niel Tomodachi

depressão sazonal

Achar cada vez mais difícil sair da cama quando o frio se aproxima é normal. Mas quando o outono e o inverno começam, também é comum encontrar-se com alguns sintomas depressivos. Nestas alturas pode estar a lidar com depressão sazonal.

A depressão sazonal (SAD) está relacionada com as mudanças de estação. Por isso, acontece sempre na mesma altura do ano: começa no outono, prolongando-se pelo inverno. “Tal como a maioria dos problemas de saúde mental, ela existe numa escala de gravidade, desde relativamente controlável até à interrupção da vida”, diz Michael Terman, diretor do Center for Light Treatment and Biological Rhythms da Universidade de Columbia, nos Estados Unidos da América.

A depressão sazonal faz praticamente o que diz. O encurtamento das horas do dia e a falta de luz solar no outono e inverno podem causar um desequilíbrio bioquímico numa parte do cérebro chamada hipotálamo que regula o humor, o apetite e o sono. O resultado? Problemas de sono, ansiedade, depressão, falta de energia e comer compulsivamente em excesso.

 

Quanto tempo dura a depressão sazonal?

 

A SAD tem tendência a aparecer durante os meses de outono – desde o final de setembro ou início de outubro, até ao início de março. Para algumas pessoas que lidam com o assunto, os seus sintomas podem ser mais intensos nos meses mais frios e escuros: dezembro, janeiro e fevereiro.

 

Quais são os sintomas da SAD?

 

De acordo com o The National Institute of Mental Health, os sintomas clássicos de depressão sazonal são os seguintes:

  • A persistência do humor baixo durante a estação do outono e inverno.
  • Perda de prazer ou interesse em atividades normais
  • Sentir-se irritável, inútil, culpada ou em desespero
  • Falta de energia ou letargia durante o dia
  • Algumas pessoas anseiam por hidratos de carbono e podem, por vezes, ganhar peso como resultado.

 

27
Jun22

O stress social pode estar a envelhecer o seu sistema imunitário

Niel Tomodachi

Os problemas com dinheiro, família e trabalho podem estar a prejudicar a sua saúde mental e a envelhecer o seu sistema imunitário.

O stress social pode estar a envelhecer o seu sistema imunitário

Hoje em dia, o stress social é um dos problemas mais comuns da população em geral e, segundo um estudo, pode não estar a afetar só a sua saúde mental, mas também a enfraquecer o seu sistema imunitário.

Estas conclusões surgem de um estudo, onde foram analisados milhares de adultos, com mais de 50 anos, e que foi publicado no Proceedings of the National Academy of Sciences.

A equipa conseguiu determinar que pessoas com níveis de stress altos podem ter um número elevado de ‘células T’ desgastadas, que são essenciais no combate a doenças e na eliminação de ‘células zombie’, isto é, aquelas que já não se dividem no organismo, mas que se recusam a desaparecer e não permitem a criação de novas. A sua acumulação pode resultar em condições como osteoporose ou até Alzheimer.

Os investigadores constataram ainda que estes indivíduos também têm falta de células “jovens e frescas”, necessárias para enfrentar novos invasores, explicou o autor principal é Eric Klopack, da Leonard Davis School of Gerontology, na University of Southern California, à CNN.

Pessoas com níveis elevados de stress e um sistema imunitário envelhecido podem vir a ser diagnosticadas com doenças cardiovasculares, cancro e outras condições de saúde que, normalmente, estão relacionadas com a idade. Além disto, estas condições podem reduzir a eficácia das vacinas, como a do Covid-19.

 

22
Fev22

App pioneira e gratuita quer ajudar a saber mais sobre saúde mental

Niel Tomodachi

Uma equipa constituída por doze pessoas da Escola de Medicina da Universidade do Minho, liderada pelo psiquiatra Pedro Morgado, desenvolveu uma aplicação gratuita para aumentar a literacia em saúde mental e promover a sua prevenção.

App pioneira e gratuita quer ajudar a saber mais sobre saúde mental

Desenvolvido durante a primeira vaga da pandemia, o projeto começou por assumir a forma de um site, com as mesmas funcionalidades, e deu agora o salto para uma aplicação de telemóvel. A app foi concebida não com "a perspetiva de tratamento de doenças, mas sim de prevenção e de disseminação de informação com vista à literacia em saúde mental", e pretende, acima de tudo "que as próprias pessoas sejam promotores ativos da sua saúde mental", contou Pedro Morgado ao JN.

A aplicação "P5 Saúde Mental" é pioneira em Portugal e já está disponível para download em Android e IOS de forma gratuita. A gratuidade da aplicação será sempre mantida, garantiu Pedro Morgado, e tem apenas fins de "disseminação do conhecimento" e "capacitação das pessoas".

 

Como funciona?

​​​​​​Depois da pessoa responder a dois questionários disponíveis na aplicação, o utilizador recebe um "feedback em função daquilo que foram as suas respostas e a indicação dos locais onde pode encontrar essa ajuda", como serviços locais e linhas de apoio à saúde mental do SNS.

"Não são recolhidos nenhuns dados pessoais" dos utilizadores durante todo o processo, garante Pedro Morgado. "Não há qualquer processo de registo" e o questionário é realizado de forma "absolutamente anónima e confidencial", sublinhou.

Depois de preenchidos os questionários, a aplicação informa as pessoas do "seu nível de sintomas e se devem ou não procurar ajuda de um profissional de saúde. Não é nem uma aplicação de tratamento nem uma aplicação de diagnóstico (...). É mais uma monitorização dos sinais de sofrimento", contou o psiquiatra.

Além de permitir a monitorização da saúde mental do utilizador, a aplicação promove também "uma série de técnicas, que [os utilizadores] podem implementar, para promoverem o seu bem estar", tais como melhores hábitos de sono, contou Pedro Morgado.

A longo prazo, o objetivo é melhorar a aplicação através de "mais módulos informativos". Neste momento estão disponíveis seis módulos informativos, mas a ideia é abranger "outras áreas que não estão ainda cobertas", como lidar com uma situação de luto e outras áreas em que é importante promover a literacia em saúde mental.

Esta é a primeira ferramenta do género e "única em Portugal". Foi construída pela Escola de Medicina e o seu centro de investigação, em parceria com o Centro de Medicina Digital P5.

 

22
Jan22

Saúde mental: pedidos de apoio de jovens dispararam mais de 50% em pandemia

Niel Tomodachi

Centro de Apoio Psicológico e Intervenção em Crise (CAPIC) do INEM relata mais crises de ansiedade e pânico e uma subida nos comportamentos suicidas por parte dos jovens nos dois últimos anos, os da pandemia

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Os pedidos de ajuda ao Centro de Apoio Psicológico e Intervenção em Crise (CAPIC) do INEM relata mais crises de ansiedade e pânico e uma subida nos comportamentos suicidas por parte dos jovens nos dois últimos anos, os da pandemia aumentaram mais de 50% nos jovens em dois anos de pandemia, com mais crises de ansiedade e pânico e uma subida nos comportamentos suicidários.

Segundo os dados disponibilizados à agência Lusa pelo Instituto Nacional de Emergência Médica (INEM), as situações encaminhadas pelo CAPIC aumentaram em todas as faixas etárias, uma subida que em quase dois anos de pandemia ultrapassa os 42%, passando de 7.345 ocorrências em 2019 para 10.474 no ano passado.

Contudo, nas camadas mais jovens (até aos 19 anos) esta subida foi mais acentuada e em dois anos subiu 52,8%, atingindo os 1.518 casos no ano passado (993 em 2019).

No total, as ocorrências que mais cresceram no CAPIC foram os incidentes críticos, como a morte inesperada de um familiar (muitos por causa da covid-19), que mais do que duplicaram desde o início da pandemia, chegando aos 2.276 casos em 2021 (1.099 em 2019).

Em declarações à agência Lusa, a psicóloga Sónia Cunha, responsável pelo CAPIC, confirmou que “com ao escalar e prolongar da pandemia” se tem assistido a “um reforço da sinalização nas camadas mais jovens“. “Muitas vezes, a família, e mesmo a escola, não identificam os problemas porque são atribuídos à fase que [os jovens] estão a ultrapassar, como a pré-adolescência, a adolescência ou até a idade infantil”, explicou Sónia Cunha, sublinhando a importância de não desvalorizar sintomas e enfrentar o problema.

A responsável lembra que esta circunstância “pode contribuir para a deteção mais tardia” e insiste: “São idades cruciais no desenvolvimento da personalidade e quanto mais aprofundado o problema estiver mais difícil é a sua resolução e o crescimento saudável do pronto de vista mental”.

As manifestações mais frequentes são a dificuldade em regular as emoções, “o que leva a episódios de crise ansiedade e ataques de pânico, mas também manifestações do foro mais afetivo, com sintomas depressivos, isolamento e desesperança“. “Este tipo de perturbação mais depressiva conduz muitas vezes a comportamentos suicidários e auto-lesivos, o que é ainda mais preocupante“, afirma.

Os dados do INEM apontam para uma subida global de quase 40% nas ocorrências relativas a comportamentos suicidários, com 2.517 casos em 2019 e 3.496 no ano passado.

Dependendo da avaliação do pedido que chega ao CAPIC, que pode vir das famílias ou das escolas, é feita uma avaliação e, nos casos mais graves, em que há risco imediato, “é ativada uma equipa de assistência para o local”.

As situações mais complexas podem exigir o envio de ambulância e da unidade móvel de intervenção psicológica de emergência, que pode atuar no local e/ou acompanhar a pessoa até à unidade de saúde.

Quando não há risco imediato, mas é identificada uma situação que requer resposta na área saúde mental, os especialistas do INEM aconselham a pessoa sobre onde se deve dirigir, fazendo, quando necessário, o contacto com a resposta na comunidade (médico de família ou escola).

“Nalgumas situações fazemos nós próprios esta ativação de rede de suporte e contactamos os centros de saúde e as escolas”, acrescentou.

A psicóloga insiste na necessidade de não desvalorizar sintomas e de validar o que jovens sentem.

A saúde mental “ainda não é algo confortável para se falar, mas não se pode ignorar. O elefante está aqui. O problema existe e em crescendo”, insistiu. Sónia Cunha reconhece que “é mais fácil dizer que é uma fase pela qual estão a passar” e que os profissionais do INEM incentivam sempre a que se dê importância aos sintomas, não desvalorizando e dando espaço para as pessoas falarem sobre estas questões.

“Muitos acham que falar sobre isto pode trazer ideias, mas não. As ideias que existem já lá estão. E quanto mais precocemente elas são faladas melhor é o prognostico. Falar sobre o assunto é uma forma de organizar os pensamentos e de alguém nos ajudar a fazê-lo“, explicou.

 

12
Out21

Depressão afeta quase um em cada três crianças e adolescentes

Niel Tomodachi

Depressão afeta quase um em cada três crianças e adolescentes

19% das crianças e adolescentes apresenta sintomas moderados ou graves de depressão. A sazonalidade do emprego no Algarve é um dos fatores que em muito tem afetado a saúde mental dos mais novos.

A depressão afeta 31% dos jovens e adolescentes em Portugal, sendo que, destes, quase 19% têm sintomas moderados ou graves e 10% correm risco elevado de ter comportamentos suicidários. Os dados, apurados num estudo conduzido em 2020 pela Escola Superior de Enfermagem de Coimbra, colocam o nosso País num patamar superior à média dos países analisados pela Organização Mundial de Saúde (OMS). De acordo com a estimativa da OMS, 20% das crianças e adolescentes têm, pelo menos, uma perturbação mental.

No Algarve, o facto de o volume de emprego ter um carácter sazonal, devido à importância do turismo para a criação de postos de trabalho, tende a acentuar o problema. "Mais ainda do que as políticas de saúde, é fundamental olhar para a legislação laboral", clama Pedro Dias, pedopsiquiatra no Hospital de Faro. "São muitos os pais que têm um, dois ou mesmo três empregos para poderem sustentar a família. Ora, isso não lhes permite estar com os filhos, o que tem óbvias consequências para o bem-estar mental das crianças".

Maria do Carmo, diretora do serviço de Psiquiatria no Hospital de Portimão, concorda. "A seguir ao Alentejo, somos a região com números mais elevados de suicídio. O desemprego é uma alavanca para a depressão, e sabemos que esta, nos casos mais graves, pode acabar em suicídio".

Depressão afeta quase um em cada três crianças e adolescentes


"Há escassez de tudo"

Apesar de notar melhorias nas políticas de saúde mental, "sobretudo nos últimos anos", a especialista tem na ponta da língua os entraves de que sofre a região algarvia: fraca capacidade de resposta nos cuidados continuados, falta de estruturas para aplicar terapêuticas ocupacionais, falta de residências para acolher os doentes, falta de recursos humanos. "Temos um pedopsiquiatra, e ainda assim não está a tempo inteiro", exemplifica. "As condições de atendimento são péssimas. Há escassez de tudo", complementa Pedro Dias.

A pandemia agravou ainda mais o estado das coisas no Algarve. "É muito provável que os casos de depressão estejam sub-diagnosticados. Fatores ambientais tão importantes como a adversidade social, os conflitos familiares e o isolamento psicossocial causado pela pouca densidade populacional da região podem ter aumentado substancialmente, e com eles os estados depressivos", refere o pedopsiquiatra, para regressar às repercussões que este panorama tem nos mais jovens: "A gravidade dos quadros depressivos tem vindo a crescer, assim como as tentativas de suicídio, para o que concorrem, por exemplo, as escassas redes de suporte. As crianças estão muito sozinhas."

Na verdade, os estudos mais recentes mostram que a depressão multiplica por 20 a hipótese de suicídio (69% dos suicidas eram depressivos). Em 2019, a depressão afetou cerca de 716 mil portugueses (40% tinham sintomas depressivos graves).

Apesar dos sinais positivos que vislumbra, Maria do Carmo faz um apelo: "A criação de equipas comunitárias [equipas multidisciplinares que vão ao terreno prestar cuidados a pessoas com doença mental] foi um avanço muito importante. Mas é preciso continuar e, sobretudo, é fundamental um olhar diferente para as necessidades. É gravíssimo termos apenas um pedopsiquiatra na região", insiste a psiquiatra, para concluir: "Sem recursos humanos é impossível dar resposta aos problemas. Bem sei que o Plano de Recuperação e Resiliência tem 85 milhões de euros para gastar em saúde mental. Falta ver como serão distribuídos".

 

13
Ago21

Este estudo revela que o Tai Chi pode mesmo reduzir a gordura abdominal

Niel Tomodachi

Mais até do que exercícios de aeróbica. Esta é a conclusão de uma publicação na prestigiada revista "Annals of Internal Medicine".

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Costuma estar associado a uma atividade para pessoas mais velhas e para quem não é tão ativo no dia a dia, mas o Tai Chi Chuan está longe de ser apenas isso. Este estilo de arte marcial que teve as suas raízes na China durante a dinastia Tang, entre 618 e 907 d.C, é praticado por milhões de pessoas em todo o mundo. E sobretudo para as que vivem nas grandes cidades, o Tai Chi Chuan funciona quase como um escape de tranquilidade e equilíbrio. Mas não se fica por aí.

Visto quase como uma receita oriental para combater o stress que se vive diariamente no ocidente, esta arte marcial está relacionada com a meditação e com a promoção de saúde mental e física. “Mentalmente, através da visualização da energia fortalece a mente, a auto-confiança e a auto-disciplina. Na parte física desenvolve a força muscular, as capacidades coordenativas”, começa por explicar à NiT o mestre de Tai Chi Nelson Barroso.

Sobre a eficácia do Tai Chi na saúde física, um estudo publicado no jornal académico norte-americano “Annals of Internal Medicine”, no dia 1 de junho, revela que o Tai Chi tem uma eficácia enorme na saúde física. Os resultados mostraram que pessoas com 50 anos ou mais ao praticarem Tai Chi durante 12 semanas podem mesmo reduzir a gordura abdominal. Essa redução pode até ser mais intensa do que a fazer os exercícios mais tradicionais aeróbicos. 

Por ser uma atividade de movimentos lentos provavelmente esta não era uma conclusão de que estava à espera. No entanto, o autor do estudo Parco Siu em declarações à “U.S. News & World Report” garante que os dados retirados da investigação “sugerem que o Tai Chi pode ser uma alternativa eficaz ao exercício convencional na gestão da obesidade central”. 

Para esta perceção, os investigadores avaliaram os corpos de 543 participantes com síndrome metabólica, um problema de saúde grave devido ao excesso de gordura abdominal e que pode aumentar o risco de desenvolver uma série de outras doenças como hipertensão arterial, diabetes tipo 2 e doenças cardiovasculares.

A equipa coordenada por Parco Siu dividiu essas pessoas em três grupos aleatoriamente: no primeiro, os participantes adotaram exercícios do Yang, um dos mais difundidos e praticados estilos de Tai Chi no mundo; o segundo grupo tinha de fazer exercícios convencionais como a caminhada rápida e o treino de força; o último grupo não fez nenhum tipo de exercícios.

Após avaliarem os corpos de todos os participantes no estudo (antes e depois), os investigadores descobriram que para além de os primeiros dois grupos terem perdido quase a mesma quantidade de gordura abdominal, também se aperceberam de um impacto favorável nos níveis de colesterol HDL (“bom”) e de poucas diferenças nos níveis de glicose, em jejum, ou na pressão arterial. Já o último grupo, que não fez exercícios, ganhou uma média de 0,8 centímetros na zona abdominal.

“Esta é uma boa notícia para adultos de meia-idade e mais velhos que têm obesidade central mas podem ser avessos ao exercício físico convencional, devido à preferência ou mobilidade limitada.”, apontou Parco Siu.

No entanto, quando questionado sobre o tema, o mestre de Tai Chi português alertou a NiT: “Tudo depende da intensidade com que se faz o Tai Chi. Se for executado todos os dias e com uma intensidade forte consegue-se esses resultados, mas isso não é para um principiante. Isso requer que a pessoa já tenha conhecimentos sobre o Tai Chi de como gerar essa força no corpo e de como executar os exercícios, porque alguém que esteja a iniciar-se na modalidade jamais conseguirá esses resultados.”

“Há conceitos muito importantes no Tai Chi”, recorda Nelson Barroso. “Um deles é o enraizamento, que é a pessoa estar conectada com o chão onde exerce muita força nos membros inferiores. É como se a pessoa estivesse a fazer flexões e em cada movimento que faça faz esse enraizamento, faz pressão contra o chão. E essa pressão contra o chão vai-lhe trabalhar os músculos, nomeadamente os músculos da cadeia posterior.” 

Depois, existe um outro conceito da arte marcial originária da China a que chamam “torção”. Aqui, trabalha-se a parte do tronco e dos membros superiores. Imagine um exercício em que está com as pernas viradas para um lado, o tronco está virado para o outro e o braço para o outro lado. Essa posição faz com que se “ganhe tonicidade muscular e também se perca adiposidade (acumulação de gordura) se for esse o caso”, reforça o mestre.

 

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