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Little Tomodachi (ともだち)

Little Tomodachi (ともだち)

14
Jan22

Nova casa, com apoio público: começou mais uma vida da Poetria

Niel Tomodachi

Despejo expulsou a “livraria gourmet” do Porto das Galerias Lumière, mas autarquia cedeu-lhes um espaço. A “nova” Poetria vai ter mais edições próprias, um guia literário pela cidade e um projecto com escolas

Francisco Reis não esconde a felicidade enquanto arruma livros nas prateleiras

Dina Ferreira perdeu o sono. Mas, desta vez, pelos melhores motivos. A criadora da Poetria, única livraria do país dedicada à poesia e ao teatro e desde 2017 nas mãos de Francisco Reis e Nuno Pereira, ainda não acredita no “final feliz” da história: depois de um processo de despejo, a Poetria salvou-se e abriu uma nova casa. Maior, a poucos metros da morada inicial e com apoio público. “Nem tenho dormido”, desabafa, feliz, enquanto cumprimenta o presidente da Câmara do Porto que, por um valor simbólico, se tornou “senhorio” da livraria.

A nova casa, no número 115 da Rua de Sá Noronha (bem pertinho das Galerias Lumière onde a livraria estava), é um upgrade, comenta com Nuno Pereira o autarca, que esta sexta-feira visitou o espaço aberto há dois dias: “Está muito bonito. Vocês merecem, temos de apoiar estas iniciativas.” A inauguração oficial está marcada para Maio, o mês do 19º aniversário da Poetria, mas os seis a oito mil livros da “livraria Gourmet” do Porto, como um dia Valter Hugo Mãe lhe chamou, já passaram para a nova morada.

“Cabiam todos na outra loja”, jura Francisco Reis com um sorriso, consciente da aparente impossibilidade física da façanha. A antiga Poetria era muito pequena. A nova, de pé direito impressionante, tem uma área generosa, distribuída em dois pisos. E abre caminho a mais livros e novas possibilidades. Há um sofá a convidar a leituras sem relógio, espaço para eventos e tertúlias dentro de portas, mais estantes para preencher: com poesia, teatro, cinema, ficção (uma selecção cuidada e restrita), livros infantis, edições em inglês. E muitas ideias já a borbulhar.

A Fresca, chancela editorial da Poetria dedicada a autores nascidos depois de 1980, a maioria deles portuenses, tem preparados mais quatro livros para editar. Está a ser ultimada a co-edição de seis peças de teatro. Aos sábados de manhã passará a haver um roteiro literário pela cidade. E, ainda em fase embrionária mas com esboços nítidos, está um projecto de ligação às escolas daquela geografia. “Vamos pedir aos miúdos para escrever poesia e desenhar e vamos publicá-los”, conta o livreiro. “Os miúdos sabem escrever. Nascemos artistas, só que depois vamos perdendo isso.”

Este “incentivo à leitura e à escrita” é, para a Poetria, parte da sua missão. E Francisco e Nuno alegram-se por, nos últimos anos, ver entrar na livraria cada vez mais jovens. Frutos, acreditam, da chancela Fresca, ela própria pensada para dar voz a outra geração. “Queremos promover uma leitura por gosto, não impositiva.”

 

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O que eles andaram para aqui chegar…

O “final feliz” nem sempre foi um vislumbre. Em Outubro de 2019, o fim anunciado das Galerias Lumière - construídas nos anos 70 pelo arquitecto Magalhães Carneiro e que tinha planos para se transformar num hotel - abria um mar de angústia para os comerciantes. A Poetria, naquela morada desde 2003, era uma das afectadas. O braço de ferro não parou mais. Enquanto outros comerciantes aceitavam sair, a livraria resistia. Mas em Março de 2021, uma notificação para abandonarem o espaço até ao final do mês acentuava a aflição. Francisco e Nuno disseram não: em tempos de pandemia e sem ajuda não poderiam sair.

O anúncio da salvação veio na Feira do Livro do Porto. Rui Moreira, a quem pediram uma reunião, tinha-os tranquilizado: a autarquia estava disposta a ajudar. Mas nos jardins do Palácio de Cristal, com Marcelo Rebelo de Sousa como testemunha, a garantia tornou-se pública: a câmara cederia um espaço à Poetria.

A proposta do independente foi aprovada em reunião do executivo, por unanimidade, em Setembro. “É uma livraria única na cidade do Porto, com uma enorme ligação cultural, com uma história”, considerou esta sexta-feira Rui Moreira destacando os três pontos onde a Poetria toca: “Estamos a falar do comércio tradicional, da alma e da cultura da cidade.”

O autarca foi mais longe. Destacando que uma autarquia “não pode ter a visão economicista que é razoável que os privados tenham” (a Poetria vai pagar uma renda simbólica de 50 euros mensais), Moreira assumiu estar disponível para outras parcerias do género. Em circunstâncias destas, disse, a Câmara do Porto quer “valer àquilo que são lojas de tradição, com impacto social e cultural”. E a Casa Chinesa – que deverá receber selo do Porto de Tradição já na próxima reunião de câmara – é um desses casos, voltou a repetir, depois de o ter afirmado na última reunião do executivo. Se a mercearia fina não resistir ao despejo de que está a ser alvo, a autarquia irá ceder-lhes uma das lojas exteriores do Bolhão.

(S)

07
Jan22

"À procura dos lagartos" nas livrarias do Porto

Niel Tomodachi

Alertar para o risco de extinção de uma espécie protegida e promover as livrarias independentes do Porto são os objetivos maiores do jogo multimédia "À procura dos lagartos", que arranca já neste sábado.

A Flâneur é uma das dez livrarias que aderiram à iniciativa

Os 220 quilómetros que separam o Porto de Vilar de Amargo, aldeia do concelho de Figueira de Castelo Rodrigo conhecida como a terra dos lagartos, vão ser encurtados ao longo das próximas semanas.

A partir deste sábado e até ao próximo dia 26 de fevereiro, as duas localidades vão ser o epicentro do jogo multimédia "À procura dos lagartos", integrado nas comemorações do Entrudo Lagarteiro 2022.

Além de ter como objetivo central alertar para a necessidade de proteger uma espécie que corre risco de extinção, como é o caso do sardão, o jogo pretende levar os participantes a descobrir livrarias da cidade do Porto - Académica, Exclamação, Flaneur, Gostar de Ler, In-Libris, Lumière, Manuel Santos, Paraíso do Livro, Poetria e Unicepe -, instando-os a encontrar um conjunto de livros essenciais da história da literatura.

Para jogar, bastará aos participantes instalar a aplicação Actionbound (versão gratuita) e pedir para jogar o jogo LagartosPorto ou/e LagartosVilarAmargo, seguindo as instruções que o jogo irá dar, desde o início até ao fim, através do recurso a sentidos e direcções, pistas e perguntas de cultura geral.

Em cada um dos locais que integram o trajeto traçado pelo jogo, depois de responder a um conjunto de questões que o jogo colocará, cada equipa poderá recolher um postal com o desenho de um lagarto, da autoria de Vítor Sá Machado e PAM. No final do jogo, possuirão uma coleção e receberão um envelope selado para os guardar.

O arranque do projeto acontece neste sábado, às 15.30 horas, no Mira Fórum, com a abertura da exposição "Lagartos, lagartos", de Ana Fernandes, com fotografia de Renato Roque e lagartários de PAM, e música tradicional com a gaita de foles de Abílio Topa.

Na próxima sexta à noite, ainda no mesmo espaço, Catarina Ginja apresenta o livro "Histórias do lagarto", de Renato Roque. A sessão inclui também um rap do lagarto, por Ana Deus, e projeções de acetatos lagarteiros.

Até ao final do projeto, há ainda a destacar, a 22 de janeiro, um conjunto de conversas sobre lagartos, em que se irá falar sobre o papel do lagarto na ecologia, na antropologia e na arte, com a participalção daartista plástica e antropóloga Angélica Lima Cruz e a bióloga Catarina Pinho

Por fim, a 12 Fevereiro, às 17 horas, está prevista uma intervenção artística de Rute Rosas intitulada "Em tudo revelação".

 

21
Out21

Aprovado decreto que alarga período de novidade do livro para 24 meses

Niel Tomodachi

O Governo aprovou hoje o decreto-lei que alarga o período de novidade do livro de 18 para 24 meses, para efeito de venda ao público, para criar uma "mais ampla proteção dos agentes livreiros".

Aprovado decreto que alarga período de novidade do livro para 24 meses

redação final do decreto-lei foi aprovada hoje em Conselho de Ministros (CdM), tendo uma versão preliminar sido aprovada a 22 de abril, também em reunião de CdM.

Segundo o Governo, o decreto-lei "alarga o período de novidade do livro para efeitos de venda ao público, de 18 para 24 meses sobre a data de edição ou importação", para garantir aos livreiros "condições de atuação mais equitativas e proveitosas para o interesse geral", e seguindo uma "tendência de outros países europeus".

O alargamento para os 24 meses encontrava-se já no projeto de revisão do Regime do Preço Fixo do Livro, enviado para consulta às entidades do setor, como a Associação Portuguesa de Editores e Livreiros, a Rede de Livrarias Independentes e a Autoridade da Concorrência.

A chamada "Lei do Preço Fixo do Livro" foi originalmente aprovada em 1996, com o objetivo de corrigir "anomalias verificadas no mercado" e de criar "condições para a revitalização do setor" livreiro, no contexto de "uma política cultural visando o desenvolvimento nos domínios do livro e da leitura".

O diploma foi depois objeto de alteração em 2000 e em 2015.

09
Out21

Da literatura marginal aos usados: quatro livrarias independentes no Porto

Niel Tomodachi

Livros acabados de publicar, de autores malditos, pouco conhecidos ou de temáticas queer, mas também velhos clássicos já manuseados, monografias históricas, revistas independentes, e ainda bar e agenda de eventos. Eis o que têm para oferecer estas quatro livrarias do Porto, inauguradas ou refrescadas em plena pandemia.

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#1 LIVRARIA EXCLAMAÇÃO

Uma casa para a literatura marginal

A Livraria Exclamação dá visibilidade a autores malditos ou pouco conhecidos, publicados pela editora homónima e por outras que, como ela, trabalham por carolice. Não faltam atividades movidas a Bibliofolia – a alegria dos livros. CF

(Fotografia: Leonel de Castro/GI)

A Editora Exclamação abriu uma livraria com o mesmo nome, em inícios de julho, no Porto, tendo como mote a Bibliofolia, ou seja, a alegria dos livros. Um espaço de leitura e encontro, que acolhe lançamentos, oficinas de escrita, exposições ou atividades para crianças, e tem em marcha novidades como a Comunidade de Leitores “Boémia”, com curadoria de Saguenail. Mas a Livraria Exclamação distingue-se, acima de tudo, por ser uma casa para a “literatura marginal com qualidade”, onde cabem “autores malditos” e pouco conhecidos, explica o proprietário, Nuno Gomes.

Exemplo acabado do interesse da Exclamação pelas franjas é que se prepara para editar em português, traduzida do persa, por uma mulher, a obra completa da poeta afegã Nadia Anjuman, “a marginal das marginais”, na expressão de Nuno Gomes. A autora publicou o primeiro livro após a queda do regime talibã, em 2001, e tinha um segundo escrito quando morreu, depois de ter sido espancada pelo marido – um bibliotecário que não via com bons olhos a sua produção literária.

Nuno Gomes no jardim das traseiras.
(Fotografia: Leonel de Castro/GI)

“Portugal tem uma especificidade: muitas pequenas editoras que, como nós, trabalham por amor à camisola. A nossa editora é suportada por outros projetos e pela carolice”, prossegue Nuno, que, além de editor, é biólogo. Através da empresa Bluemater, disponibiliza soluções de tratamento de águas inovadoras e ecoeficientes – inventou sistemas já patenteados ou em vias disso.

Na edição, tudo começou com a Planeta Vivo, ligada à natureza, e que agora é uma das coleções da Exclamação, coordenada pelo próprio. Há várias, com diferentes curadores. Entre elas, a Avesso, dedicada a autores relevantes e muito pouco conhecidos, coordenada por Rui Manuel Amaral; a Novíssima, centrada em novos talentos da poesia e coordenada por Nuno Brito e Maria Bochicchio; ou a Afrikana, coordenada por António Cabrita.

Umas das peças da exposição “Livros-Objecto”, de Isabel de Sá.
(Fotografia: Leonel de Castro/GI)

Nas prateleiras, além da Exclamação, estão representadas outras pequenas e microeditoras, assim como algumas editoras maiores e outras chancelas, que se enquadram ali. Lado a lado com títulos da Hélastre, da Orfeu Negro ou da Língua Morta, estão outros da Assírio & Alvim, da Tinta da China e mais.

Existe uma loja online, mas vale bem a pena visitar a livraria, com um pequeno jardim nas traseiras, rés-do-chão e primeiro andar. Neste último, ficam as obras ligadas à natureza, à arte e infanto-juvenis – o ideal é celebrar os livros logo desde a infância.

Relíquias

Há algumas relíquias expostas na livraria, desde uma prensa do século XIX até uma máquina de escrever, dos anos 1930, que funciona com ponteiro.

 

SUGESTÃO DO LIVREIRO:

“Antes de mais e depois de tudo”, de Regina Guimarães
Editora Exclamação
14,90 euros

 

Eis a primeira antologia poética da autora portuense, com seleção e posfácio de Rui Manuel Amaral. “A Regina escreve poesia ao pequeno-almoço, num e-mail… Este é um livro que se lê em qualquer altura, como ela escreve em qualquer altura. É uma poesia de alegria”, defende Nuno Gomes.

 
 

#2 LIVRARIA ABERTA

Espaço para se ler as margens

Foi no fim do primeiro confinamento que Paulo Brás e Ricardo Braun começaram a pensar em abrir um espaço próprio. Surgiu então a Aberta, primeira livraria de temáticas queer no Porto. LM

(Fotografia: Leonel de Castro/GI)

Paulo, investigador na área da literatura, produtor cultural e performer, e Ricardo, tradutor, encenador e professor de dramaturgia, pensaram em abrir um espaço cultural após o primeiro confinamento. “Não pensámos necessariamente numa livraria, mas sim num espaço para a cidade onde pudéssemos desenvolver o nosso trabalho”, conta Paulo. Mas logo perceberam que o espaço tinha de ser sustentável. “Podia vir para aqui fazer programação cultural mas como é que isso se pagava?”. Idealizaram, então, uma livraria, que inauguraram em junho e, agora que foram levantadas as limitações devido à pandemia, querem ter lá exposições, conversas, lançamentos de livros, entre outros eventos.

Desde o início que assumem o espaço como uma livraria queer, sendo assim a primeira do género na cidade. “Já tinha havido uma livraria LGBT [lésbica, gay, bissexual e transgénero] em Lisboa, a Esquina Cor de Rosa, da Jó Bernardo (funcionou entre 1999 e 2005)”, lembra Paulo. Aqui, optam pelo termo queer por uma questão de inclusividade. “A par das minorias sexuais, é importante falar de outras. A questão da intersecionalidade é muito importante. As lutas pelos direitos humanos não são todas a mesma coisa mas podem ser lidas em conjunto e podem aprender umas com as outras”, reflete. “Queremos ser abrangentes, por isso, para além das minorias sexuais, falamos de minorias raciais, de classe, de género”.

O espaço da livraria e o seu catálogo, ainda em construção, refletem isso mesmo. A loja é um espaço minimalista e arrumado, com muito espaço vazio “para que carros de bebés ou pessoas em cadeiras de rodas possam passar”. Nas prateleiras, os livros não estão dispostos por género literário, mas sim por ordem alfabética de autores. Começa pelos anónimos, “quase como uma brincadeira ao início da história da literatura” – o primeiro livro é mesmo o “Épico de Gilgameš” – depois vai de A ao Z. Na última prateleira estão as antologias e os livros com vários autores. As novidades estão junto ao balcão.

À parte, estão as secções infantil e juvenil. “São muito abrangentes, pois não era possível ter um catálogo exclusivamente queer em Portugal”, diz. Alguns dos livros disponíveis já foram publicados com esse objetivo, há outros que não, mas que permitem “ter essa conversa com as crianças e os adultos responsáveis por essas crianças”. Desde que os livros “falem de diversidade, de inclusão, já nos sentimos à vontade para os ter cá”.

Na parte dedicada aos jovens, há alguns clássicos para “se ler as margens de outra maneira. Muitos livros juvenis falam de crianças órfãs ou que estão sozinhas. Todos contam de alguma maneira histórias de superação a partir do isolamento ou da marginalidade. Faz todo o sentido ter aqui, por exemplo, ‘O Diário de Anne Frank’”, conclui.

(Fotografia: Leonel de Castro/GI)

Editora queer

Outra das facetas deste projeto é ser uma editora, dedicada à publicação de livros antigos de autores portugueses e estrangeiros. O primeiro será “O Barão de Lavos”, de Abel Botelho, originalmente publicado em 1891 e que é o primeiro romance homoerótico português.

SUGESTÃO DOS LIVREIROS:

“Menino, Menina”, de Joana Estrela
Planeta Tangerina
12,90 euros

“Este livro para a infância é de uma autora e ilustradora incrível do Porto e reflete o que queremos para esta secção. De forma descomplicada, fala de género para as crianças, mas ainda mais para os adultos responsáveis por essas crianças. Começa por falar das distinções de género, dos seus clichés, para depois os desconstruir”.

(Fotografia: Leonel de Castro/GI)

 

#3 TÉRMITA

Um sítio para agregar livros e pessoas

Os donos do Café Candelabro, onde antes funcionou um alfarrabista, nunca deixaram cair a ligação aos livros, mas quiseram dar-lhes casa própria. Em fins de 2020, abriram a livraria Térmita mesmo ao lado, num antigo armazém de madeiras. CF

A equipa que se divide entre a livraria Térmita e o Café Candelabro.
(Fotografia: Pedro Correia/GI)

A pandemia não demoveu os primos Hugo Brito e Miguel Seabra, mentores do Café Candelabro, de abrir uma livraria na porta contígua: a Térmita. O nome assenta-lhe bem. Afinal, nasceu num antigo armazém de madeiras então tomado por bichos de natureza gregária que fazem daquela matéria-prima – e dos livros – refeição. “Os sítios também falam um bocado do que poderão ser”, comenta Hugo Brito, frisando que o projeto – de que também faz parte o livreiro Hugo Miguel Santos – pretende “agregar pessoas, livros, ideias”.

O espaço sofreu obras sem apagar as marcas do tempo, condizentes com a sua nova vocação. Na Térmita, livros usados e fora de edição surgem ao lado de outros bem recentes, “escolhidos a dedo”, de pequenas editoras como Sr Teste ou Edições do Saguão. Tanto se encontra publicações de aspeto cuidado, acabadas de sair, como velhos clássicos, monografias históricas, livros técnicos ou de arte. “Queremos ser um sítio onde o livro seja tratado de forma especial, e não simplesmente colocado por ordem alfabética”, resume Hugo Brito. Essa “desorganização organizada” gera surpresas, “faz parte da magia de ir a uma livraria: podes encontrar um policial na secção de filosofia”.

Os móveis e estantes desenhados pelo ateliê Still Urban Design, de Sofia Pera Fernandes, convivem com objetos curiosos, como figuras de robôs ou uma cadeira de cinema, a puxar pela leitura. Há ainda alguma música de editoras portuenses e espaço para apresentações de livros, oficinas e exposições – a propósito, “Pise com cuidado”, de Amanda Copstein, acaba de chegar ao armazém dos fundos.

A exposição “Pise com cuidado”.
(Fotografia: Pedro Correia/GI)

SUGESTÃO DOS LIVREIROS:

“Regras para a direcção do espírito”, de Pedro Eiras, com desenhos de Pedro Proença
Editora Flop
18,50 euros

A obra, em prosa, apresenta-se numa caixa contendo 31 cartas e um cartaz. É um objeto literário, foge ao formato tradicional do livro. “Este tipo de leitura convida à hipertextualidade; não tem de ter uma ordem”, sublinha Hugo Brito.

(Fotografia: Pedro Correia/GI)

 

#4 GATO VADIO

A livraria da contracultura

No início de 2020, a livraria Gato Vadio – da Associação Saco de Gatos – saiu do espaço onde estava desde a sua abertura, em 2007, na Rua do Rosário, para reabrir numa artéria próxima. O espaço continua a juntar livraria, bar e espaço para eventos. LM

(Fotografia: Rui Oliveira/GI)

“Isto não é apenas uma livraria, é um espaço onde se fala de livros”, começa por elucidar Jorge Leandro Rosa, responsável pelas escolhas editoriais que aqui se encontram. O ensaísta e tradutor não quis, nesta nova fase do Gato Vadio após a mudança de instalações, deixar de parte a tradição ligada à poesia, mas quis aprofundar a atenção para outras áreas, “sobretudo o ensaio político, as alternativas ecológicas e o ensaio sobre arte”.

Assim, foi reforçada a presença de revistas nestes campos, “principalmente estrangeiras – espanholas, francesas, norte-americanas – porque não há muitas portuguesas”, diz. A linha continua a ser o pensamento alternativo, a contracultura, a atenção aos pequenos editores, ao fanzine e aos livros de autor. “O pequeno editor de qualidade interessa-nos muito – por exemplo, temos livros de uma editora aqui do norte, a Contracapa, que tem lançado antologias de poesia árabe, sueca, hispano-americana, italiana…”. Esta coleção vai ser o centro de vários eventos durante os próximos meses.

Como espaço de convívio que é, a Gato Vadio quer “promover a vida social em torno do livro”, mas não só. Continua a organizar sessões de cinema regulares às quintas-feiras e alguns jantares informais. Em novembro, pretende organizar um encontro internacional de revistas de pensamento alternativo.

SUGESTÃO DOS LIVREIROS:

Revista Salamandra (23-24)
Edição: Grupo Surrealista de Madrid
15 euros

Está à venda no Gato o mais recente número da “Salamandra”, a revista editada pelo Grupo Surrealista de Madrid. Aqui, em mais de 400 páginas, há ensaio, poesia e arte visual, sempre no espírito da “rebelião surrealista”. Para ser lida “à noite, com um bom suporte e com tempo disponível”.

(Fotografia: Rui Oliveira/GI)

(S)

 

07
Set21

Livraria Poetria reabre em novo espaço e Marcelo vai à inauguração

Niel Tomodachi

A livraria Poetria, localizada nas Galerias Lumière do Porto construídas nos anos 70, vai reabrir em novembro num novo espaço do Porto e o Presidente da República foi convidado para a inauguração, avançou hoje à Lusa fonte oficial.

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"A Poetria vai ter três meses para fazer a mudança para um novo espaço na Rua Sá de Noronha, número 115. Acredito que em novembro já estejamos instalados. É uma ótima notícia", disse esta noite à agência Lusa Francisco Reis, um dos donos da livraria Poetria, adiantando que o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, foi convidado para estar presente na inauguração do novo espaço.

Segundo Francisco Reis, quando o Presidente da República esteve presente na abertura da Feira do Livro do Porto -- 27 de agosto -, foi convidado pelo presidente da Câmara do Porto, Rui Moreira, para vir à inauguração do novo espaço da Poetria, e Marcelo Rebelo de Sousa terá respondido que viria "com muito gosto à inauguração. Nós ficámos um bocado atónitos".

A Poetria recebeu na sexta-feira passada, dia 03 de setembro, uma carta dos senhorios das Galerias Lumière com "ordem de despejo" e com o pedido de "indemnização de mais de oito mil e trezentos euros", revelou à Lusa Francisco Reis.

"Nós consideramos ridículo [o pedido de indemnização]. Isto tem que ser feito ao contrário. A indemnização será para nós e não para eles", declarou Francisco Reis, acrescentando que já enviaram a carta com ordem de despejo ao advogado.

A livraria Poetria que foi classificada como "tendo interesse cultural" e que hoje viu ser aprovada pela Câmara do Porto a cedência temporária de um imóvel arrendado por "dois anos de cedência temporária, com possibilidade de renovação por mais dois anos", já tinha sido notificada para abandonar o espaço nas Galerias Lumière até dia 31 de março de 2021, mas os donos recusam sair da loja em tempos de pandemia.

Na altura, Francisco Reis disse à agência Lusa que no atual contexto de pandemia e de estado de emergência seria "impossível a loja sair das Galerias Lumière".

A livraria Poetria voltou a ser notificada para "desocupar" aquele espaço até 23 de abril, mas os donos tornaram a recusar abandonar a loja em tempos de pandemia.

As Galerias Lumière receberem, em maio de 2020, um parecer favorável da Câmara Municipal do Porto ao Pedido de Informação Prévia (PIP) para uma unidade hoteleira, adiantou hoje à Lusa fonte da autarquia.

"O PIP já recebeu informação favorável. O projeto foi alterado, dando resposta adequada às questões que tinham sido colocadas anteriormente pela Câmara, mantendo assim uma galeria comercial, de ligação entre os dois arruamentos, ao nível do piso térreo", lê-se numa resposta, por escrito, da Câmara do Porto.

A 14 de maio de 2020, a Direção Regional de Cultura do Norte (DRCN) emitiu parecer favorável condicionado ao PIP para instalação de um hotel nas Galerias Lumière, no Porto, que obteve, em janeiro, uma apreciação desfavorável da autarquia.

As Galerias Lumière foram construídas nos anos 70, com um projeto do arquiteto Magalhães Carneiro.

As Galerias Lumière tiveram o seu apogeu nos anos 80, com duas salas de cinema inauguradas em 1978 e que se chamavam "A" e "L" em homenagem a Auguste e Louis Lumière, os dois irmãos franceses ligados a história do cinema mundial, mas vieram a encerrar em 1997.

Em 2012 e 2013, a empresa proprietária das Galerias, Imocpcis SA, dá início a obras de restauro e de revitalização das lojas e da zona central e em 2014 as Galerias reabrem ao público.

 

02
Ago21

Há uma nova livraria inclusiva para conhecer no Porto

Niel Tomodachi

A Livraria aberta define-se como queer, mas é muito mais do que isso. Abriu em junho e quer ser um espaço de liberdade.

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Numa altura em que o setor literário em Portugal atravessa — como muitos outros — uma situação difícil, abrir uma livraria é quase um ato de coragem. Ou de loucura, dependendo do ponto de vista.

Seja qual for o caso, há uma nova livraria que precisa de conhecer: a Livraria aberta. Fica no Porto, abriu a 28 de junho e define-se como uma “livraria queer”.

Embora tenha realmente uma ligação a todas as questões LGBTI, é muito mais do que isso. E quer ser uma livraria de bairro, onde todos se sintam bem, independentemente de qualquer rótulo que possam colocar-lhe.

“Para nós, queer é tudo o que não é normativo. Pessoas que estão à margem são também queer e podem ter mais do que uma exclusão”, conta à New in Porto um dos sócios do projeto, Paulo Brás.

Isto quer dizer que uma pessoa pode ser marginalizada porque é de uma minoria sexual, pela sua classe social, por uma deficiência física ou tudo isto em simultâneo. É por isso que a Livraria aberta pretende ser o mais abrangente possível e incluir todas as minorias.

Antes de saber mais sobre o que vamos encontrar nesta livraria, convém perceber de onde veio toda a ideia. Este era um sonho já antigo de Paulo Brás e de Ricardo Braun. O casal de 32 e 35 anos, respetivamente, está junto há cerca de oito anos e partilha a paixão pela literatura e pelas artes em geral. Paulo é formado em Literatura, foi durante vários anos produtor cultural e é investigador nesta área. Ricardo, por sua vez, está ligado aos bastidores do teatro, à dramaturgia e à tradução.

“Tínhamos vontade de ter um projeto próprio e a pandemia acabou por acelerar o processo. Como aconteceu com muita gente, tivemos mais tempo para pensar e surgiu uma oportunidade que de outra forma talvez não existiria.”

Conhecedores do panorama livreiro do Porto, começaram a delinear todo o conceito do projeto no final do ano passado e aproveitaram a pausa do segundo confinamento para preparar tudo. Assim começou a ser pensada esta livraria, de estilo minimalista tanto no mobiliário e decoração como até nas próprias estantes. Aqui não há grandes prateleiras do chão ao teto carregadas de livros onde parece que não há espaço nem para mais um. A ideia é mesmo que haja uma sensação de leveza, até pelas estantes meio vazias.

Quanto aos livros, embora tenham temáticas mais associadas às minorias, à identidade de género ou à orientação sexual, vão muito além disso. Há poesia, romance e tudo o que possa procurar. Há uma secção infantojuvenil que pretende ser ainda mais abrangente e os livros são escolhidos conforme os responsáveis achem que se enquadram no conceito.

Há autores e livros que podem ser considerados mais ligados a estas temáticas, mas aqui podem ser até mais importantes os personagens. Não há uma regra rígida. Até nas estantes os livros estão classificados por autor e não por género ou temática.

“Temos aqui um pouco de tudo, mesmo livros que não são óbvios enquanto LGBTI. Podem ser feministas, de mulheres negras, de pessoas com deficiência, narrativas de e sobre pessoas excluídas, essencialmente.”

O catálogo neste momento ainda é reduzido, mas está a ser construído aos poucos, com ajuda de alguns clientes. E se não encontrar o livro que procura, pode sempre pedir para encomendar. Para já, pode comprar os livros na loja ou através das redes sociais, mas o site da livraria está já a ser preparado e em breve será possível também fazer as suas compras online.

Está também a ser pensada a inclusão de uma programação cultural regular, algumas conversas, atividades para crianças e, eventualmente mais para a frente, até a publicação de alguns livros.

 

16
Jul21

Há uma nova livraria para descobrir no Porto

Niel Tomodachi

A Bibliofolia vai dar visibilidade a pequenos autores e editoras. Tem até um jardim e atividades programadas.

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Numa altura em que a maioria dos jovens — e não só — prefere ver filmes e séries do que ler um bom livro, nota-se que há um decréscimo das livrarias de rua. Vemos mais e mais espaços a fechar, proprietários que não conseguem aguentar o negócio e a pandemia que veio complicar ainda mais as contas.

É por isso que a abertura de uma livraria é sempre uma boa notícia. Este é o caso da Bibliofolia, a nova livraria da editora Exclamação. Abriu a 5 de julho na Rua Aníbal Cunha, na zona de Cedofeita, e pretende ser muito mais do que apenas um lugar onde se vendem livros.

“Sentimos que tínhamos a necessidade de ter um espaço aberto ao público, ao mesmo tempo que há falta de espaços livreiros no Porto. Por isso, criámos este espaço onde as pessoas podem vir estar, ler, encontrar obras de pequenos editores ou escritores que não têm onde mostrar os seus trabalhos”, revela à NiT o dono da Editora Exclamação, Nuno Gomes.

A abertura desta livraria era já um sonho antigo, que foi sendo adiado também pela pandemia, até que decidiram que “não dava para esperar mais porque a vida tem que continuar”. Aproveitaram um espaço onde já tinham escritórios, fizeram algumas alterações e assim nasceu para o público esta Bibliofolia.

O edifício em si tem dois pisos e uma decoração muito simples, onde sobressaem as estantes com livros e onde há um cantinho com um sofá para sentar a ler, para fazer apresentações ou até para receber exposições. Aqui encontra ainda um pequeno jardim onde pode ficar a ler e onde no futuro terão lugar algumas atividades.

Tem até um jardim onde pode ler
 

Neste momento, encontra na livraria a exposição “Livros-Objeto”, de Isabel Sá, que poderá ser vista até ao final de setembro. A exposição tem livros construídos a partir de imagens e tenta mostrar que os livros podem ser meros objetos ou ser muito mais.

“Vamos fazer uma aposta em conteúdos de poesia, ficção, arte, ciências naturais e literatura infantil. Sobretudo, e apesar de contarmos também com grandes editoras, vamos focar-nos na literatura marginal, que não está disponível noutros locais, de pequenos editores e de autor, desde clássicos menos conhecidos a novos nomes.”

Além desta aposta, vai haver algum foco na literatura brasileira e africana, vai ser criado um clube de leitura e de cinema na literatura. Nos próximos meses serão também agendadas pequenas oficinas para crianças e outras sobre temas como encadernação ou impressão.

“Temos uma noção clara que é um projeto arriscado, mas achamos que as pessoas estão cansadas do digital, vai haver uma reviravolta e durante a pandemia até houve um aumento do regresso aos livros. O livro físico não vai morrer e esta é a nossa aposta. Queremos incentivar à leitura e às gerações mais novas a voltar à relação envolvente com os livros.”

 

13
Jul21

Stuff Out: a nova livraria de Lisboa tem milhares de livros em segunda mão

Niel Tomodachi

Fica perto da zona de São Bento e tem uma loja online. É um projeto de dois jovens centrado na economia circular e sustentável.

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Chama-se Stuff Out e é a nova livraria de Lisboa. Fica perto da zona de São Bento e começou como uma plataforma online para venda de livros usados. É um projeto de dois jovens empreendedores assente nos conceitos de economia circular e sustentabilidade.

Pedro Sousa e Rui Castro Prole estudaram juntos na Nova IMS, da Universidade Nova de Lisboa. Pedro, com 25 anos, tirou o curso de Gestão de Informação e começou a trabalhar numa empresa farmacêutica. Rui, com 24, terminou a licenciatura em Sistemas de Tecnologia de Informação, e conseguiu emprego na banca.

Juntos, e numa altura ainda sem grandes responsabilidades financeiras, decidiram deixar os empregos, arriscar e investir o que tinham neste projeto — que entretanto já deu uma grande volta.

“O nosso objetivo era vender produtos em segunda mão. Começámos por vender tudo, recheios de casa completos. O objetivo era fomentar a economia circular e um estilo de vida mais sustentável, tentar dar a perceber às pessoas que não é preciso comprar tudo de novo. Agora já começa a haver algumas marcas de roupa, que só se focam num tipo de artigo, mas não havia ninguém e ainda não há, a fazer isto bem: pessoas novas com capacidade para comunicar com um público mais jovem de forma a explicar que é ok comprar em segunda mão. Há muita gente a fazer esse trabalho informalmente, aquelas instagramers de vidas sustentáveis, mas não há muitas empresas que o façam como um todo. E essa era a nossa ideia original”, explica à NiT Pedro Sousa.

A Stuff Out abriu oficialmente em janeiro de 2020 — antes da loja online. Pedro e Rui conseguiram um espaço de armazém com escritório — ali bem perto de onde agora funciona a livraria — e começaram a vender todo o tipo de artigos (inclusive livros). Em março, desse ano como todos sabemos, chegou em força a pandemia, que fez parar tudo. Isso resultou num “conjunto grande de livros parado no armazém”, que era o que mais continuaram a vender.

“Reparámos que os livros vendiam, que as pessoas estavam a olhar para nós de outra forma e começavam a entender a nossa mensagem de ‘ok, é fixe comprar produtos em segunda mão’. Claro que o preço é um grande fator, os livros ficam muito mais baratos — Portugal é um dos países onde os livros novos são mais caros. E além disso a questão da sustentabilidade: não estamos a produzir algo novo. E uma coisa que tentámos marcar desde o início é que são livros que por si próprio já têm outra história. Às vezes têm uma dedicatória, de alguém que ofereceu aquele livro ao pai, ou têm a assinatura da pessoa que foi o dono do livro.”

Fica na zona de São Bento.
 

Foi a partir daí que se começaram a virar quase completamente para os livros, percebendo que havia uma oportunidade de mercado — e desenvolveram software que pudesse ser usado na gestão diária do inventário e da catalogação. Fizeram vários testes entre agosto e outubro do ano passado e em dezembro renasceu a Stuff Out online — com um site que só vende livros e que se mantém até hoje, com bastante sucesso.

“Os livros são só a forma como arranjámos de passar a mensagem. Percebemos que era a área mais fácil de entrar e de fazer a diferença. Temos a vantagem de o Rui perceber muito, muito de livros. O conhecimento já cá estava, nós é que também não estávamos a saber aproveitá-lo.”

A ideia de terem uma loja física já estava na mente de ambos, mas de repente:. “Há um dia em que estaciono aqui perto e reparei que havia um espaço para alugar — onde é a nossa loja agora”, conta Pedro Sousa. “Liguei para o contacto que lá estava e perguntei se era possível irmos ver o espaço. Fomos ver e percebemos que era perfeito para nós. Era o que precisávamos para crescer. Nós estamos muito perto: a loja é na rua atrás do nosso escritório, onde também é o armazém. Já conhecíamos bem o bairro.”

Em apenas dois dias ficaram com o espaço — que teve de levar obras durante dois meses. O passo seguinte foi contratar Andreia, de 29 anos, gerente de loja com experiência no contacto com os clientes. “É a nossa cara do negócio.” A Stuff Out foi inaugurada a 1 de julho.

A ideia é terem apresentações de livros no futuro.
 

Ter uma loja física era um objetivo com várias intenções. “Primeiro: dar credibilidade ao projeto online. Há uma dificuldade em vender livros online em segunda mão, muito porque, com a pandemia, há muitas pessoas a fazê-lo de forma não profissional. Pessoas que criaram uma página no Facebook e estão a vender livros a partir da sua casa. O que para nós é muito difícil porque os clientes que não nos conhecem têm a tendência de pôr todos no mesmo saco. Ou seja, no caso deles não há devoluções. Nós temos de ter: 14 dias de arrependimento, devolução sem questões.”

E acrescenta: “Além disso queríamos mostrar a nossa visão de venda de produtos em segunda mão. Na loja não temos só livros: temos uma mistura de artigos, uns que fomos comprando em feiras, outros que fomos guardando dos recheios de casas, coisas que aproveitámos e lhe demos um propósito, muitas vezes decorativo. Ou seja, a nossa loja não é só livros e o que queremos é mostrar como pode funcionar a decoração de um espaço só com produtos em segunda mão. Temos tido um feedback muito positivo e estou muito contente com o espaço. E é uma decoração em constante mudança. Não é garantido que daqui a um mês o espaço esteja exatamente igual”.

Ou seja, há várias peças decorativas que adornam o espaço — e estão todas disponíveis para venda. Encontra pela Stuff Out, por exemplo, a parte da frente de uma mota antiga, ou carrinhos de serviço de aviões, que são usados como repositores de livros. 

“Agora temos um cartão de visita. As vendas também aumentaram no online, através do site e do nosso Facebook, porque temos um espaço físico e um sítio que dá credibilidade ao negócio.”

Há várias peças decorativas à venda.
 

A Stuff Out também funciona como espaço de leitura. “As pessoas não têm de comprar. Podem só ir e desfrutar do espaço, falar connosco, conhecer-nos, podemos sugerir livros, podem-se sentar, ler um bocadinho. Temos o caso de estrangeiros que nos vêm pedir livros simples em português, porque estão a aprender. Nós recomendamos e eles ficam um bocadinho a ler para ver se faz sentido.”

Quando a situação de pandemia melhorar, a ideia é tornar a Stuff Out um local de maior partilha, com apresentações de livros e outras iniciativas. “Dar espaço a pessoas que normalmente não têm espaço, autores independentes. A loja para nós não é todo a meta. É só mais uma etapa. Temos ainda muitos projetos na gaveta.”

Através do online, vendem para pessoas de todas as idades — e muito para zonas mais remotas do País, em locais onde não existem livrarias físicas. Apesar de todas as coisas negativas, a pandemia impulsionou o comércio online, o que também foi uma vantagem para Pedro Sousa e Rui Castro Prole.

Este projeto tem todo o tipo de livros. “Nós não encomendamos os livros, vamos gerindo de acordo com o que aparece, o que compramos. Vendemos de tudo e isso para nós não tem problema nenhum. Até porque no online queremos tentar agradar a toda a gente. Há alguma curadoria no sentido de que não vendemos livros em mau estado. Só vendemos livros passíveis de serem oferecidos por alguém.” 

A equipa da Stuff Out.
 

Há três mil títulos à venda na loja. Mas no total, contando com o stock de armazém, chega aos 15 mil. Na livraria estão à venda os melhores e mais originais, com um esforço de curadoria para que haja diversidade. Seja como for, todo o catálogo pode ser consultado online. Existem raridades, histórias icónicas de autores famosos, grandes obras da literatura clássica e livros técnicos. Um pouco de tudo, portanto.

“Claro que há livros que não se vendem e tentamos fazer outras coisas com eles. Temos uma parede de livros na loja. Também somos nós a tentar fechar o círculo, a dar uma vida a estes livros que, de outra forma, tinham de ir para o lixo — faltavam páginas, tinham páginas rasgadas, etc. E acabamos por ficar com muitos livros parados porque não se vendem e nós também não os queremos deitar fora.” 

A Stuff Out está aberta de segunda-feira a domingo, das 11 às 19 horas. Fica no número 70c da Rua da Quintinha, em Lisboa. Pode contactar os responsáveis através do email contacto@stuffout.pt ou dos números de telefone 210 109 342 ou 212 416 957.

 

29
Mar21

Aventuras de Arsène Lupin chegam às livrarias graças ao sucesso da série

Niel Tomodachi

Várias editoras estão a lançar as aventuras de Arsène Lupin, o cavalheiro ladrão criado por Maurice Leblanc em 1905, a reboque do sucesso de audiências da série da Netflix, cuja segunda temporada foi anunciada em janeiro.

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Arsène Lupin é uma personagem de ficção criada há mais de um século por Maurice Leblanc, inspirada no anarquista francês Marius Jacob (1879-1954), e que representa um ladrão cavalheiro bem vestido, caracterizado pela sua inteligência e perspicácia.

Em janeiro deste ano, a Netflix estreou a série 'Lupin', inspirada nas aventuras deste gatuno de casaca, e liderou o 'top' diário do serviço de 'streaming' em vários países, como Portugal, Brasil, Argentina, Itália, Espanha, Holanda ou Suécia.

Depois deste sucesso, a Netflix anunciou o regresso de Lupin no verão, tendo divulgado o 'teaser' da segunda parte da série no início deste mês.

À boleia deste sucesso, as editoras anunciaram o lançamento dos livros de aventuras de Arsène Lupin, com a Relógio d'Água e a Cultura Editora na linha da frente com as publicações a decorrerem já este mês.

'Arsène Lupin - Gentleman Ladrão' é o título da edição da Relógio d'Água, que recupera a coletânea de nove contos, inicialmente publicados na revista Je Sais Tout em julho de 1905, como uma alternativa às narrativas policiais de Sherlock Holmes, de Arthur Conan Doyle.

A obra conheceu um enorme sucesso com a criação de um protagonista dotado de imaginação fértil, agilidade física e mental, sentido de humor, elegância e com uma falta de escrúpulos associada a um código de honra que o levava a proteger sempre os mais frágeis.

Neste primeiro livro da Relógio d'Água - que já anunciou que irá publicar também o segundo e terceiro volume da série -, Arsène Lupin demonstra a sua capacidade para esconder joias de um modo original, escapar à prisão, assaltar cofres, descobrir joias falsas, mostrando ainda como desde rapaz se revelara o seu talento de assaltante.

A Cultura Editora também já fez chegar às livrarias a sua edição da mesma obra, com o título 'Arsène Lupin - Cavalheiro Ladrão'.

No próximo mês, outras publicações surgirão nos escaparates das livrarias, desde logo uma edição da Leya, que chega no dia 6 de abril, intitulada 'Arsène Lupin, Ladrão de Casaca', numa edição de lombada cozida à mão e sem corte a guilhotina, "conferindo um aspeto de manuscrito, tal como terá sido entregue à editora nos primórdios da carreira deste mestre do crime", explica a Leya.

Dois dias depois, será posta à venda a versão da Porto Editora, 'Arsène Lupin, Cavalheiro Ladrão', que também acompanha as primeiras nove aventuras de Lupin, situadas em Paris, no início do século XX, em plena Belle Époque.

No dia 15, é a vez de a editora Aletheia, através da chancela Ideia-Fixa, pôr à venda 'Arsène Lupin contra Sherlock Sholmes', o segundo volume da série de vinte títulos que Maurice Leblanc dedicou à figura de Arsène Lupin.

A Ideia-Fixa já tinha publicado em 2015 o primeiro volume, 'Arsène Lupin, gentleman-gatuno', que as outras editoras estão agora a lançar.

Maurice Leblanc construiu uma das personagens mais marcantes do policial, que veio a inspirar, entre outros, o Santo, de Leslie Charteris, e muita da banda desenhada famosa dos anos 1960.

É o caso da personagem Arsène Lupin III, protagonista do manga japonês 'Lupin III', de 1967, que foi escrito como sendo o neto de Arsène Lupin.

Os autores das várias edições de Lupin III, usaram os romances de Leblanc como inspiração para outras obras, como foi o caso do realizador japonês Hayao Miyazaki, e o seu filme 'O Castelo de Cagliostro' (1979), vagamente baseado na aventura 'A Condessa de Cagliostro'.

Maurice Leblanc nasceu a 11 de dezembro de 1864, na cidade francesa de Rouen, no seio de uma família rica.

Aos 6 anos, foi enviado para a Escócia, devido à Guerra Franco-Prussiana, onde prosseguiu os estudos, tendo-se revelado demasiado bom aluno, como reconheceria mais tarde com arrependimento.

Cedo travou conhecimento com as obras literárias de Gustave Flaubert e Guy de Maupassant (este último apoiou-o nas suas primeiras tentativas literárias), normandos como ele, e mais tarde conheceu os trabalhos de Émile Zola e Mallarmé.

Apesar das oportunidades de estudo em França, na Alemanha ou em Itália, decidiu interromper o curso de Direito para se tornar jornalista e escritor, depois de uma curta experiência de trabalho na empresa familiar.

Estabeleceu-se como repórter policial do jornal L'Écho de Paris e publicou "Une femme", um romance psicológico, aos 23 anos, que foi bem acolhido pela crítica, mas ignorado pelos leitores, o que viria a acontecer com as suas obras seguintes.

A personagem que o tornaria famoso, Arsène Lupin, surgiu de um convite do editor da revista Je sais tout para publicar histórias de um detetive que pudesse ser uma alternativa às de Sherlock Holmes, então muito populares.

Mas Arsène Lupin viria a revelar-se uma personagem contrária à do detetive de Baker Street, inspirando-se no anarquista francês Marius Jacob, considerado um ladrão inteligente, com sentido de humor e generosidade.

A obra de Maurice Leblanc tinha também raízes em autores como Octave Mirbeau, e embora, a partir de 1907, se tenha dedicado quase exclusivamente à personagem de Arsène Lupin, escreveu ainda dois romances de ficção científica, "Os Três Olhos" (1919) e "O Fantástico Acontecimento" (1920).

Socialista radical, agraciado com a Ordem Nacional da Legião da Honra, Maurice Leblanc morreu de pneumonia em 1941, aos 76 anos, em Perpignan, para onde se retirara em 1939, depois da invasão alemã.

Vários dos seus vinte e quatro romances policiais foram adaptados ao cinema e ao teatro.

 

27
Mar21

São Paulo vai ter uma livraria só com livros escritos por mulheres

O nome do espaço remete para um ensaio de Virginia Woolf

Niel Tomodachi

A livraria vai abrigar cinco mil exemplares de 1 500 obras, de 150 editoras.

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Vai chamar-se Gato sem Rabo a primeira livraria em São Paulo, Brasil, só com livros escritos por mulheres. Idealizada por Johanna Stein, o nome remete para o ensaio “Um teto todo seu”, de Virginia Woolf.

Em 65 metros quadrados, a livraria vai abrigar cinco mil exemplares de 1 500 obras, de 150 editoras. Títulos de ficção e não-ficção, dos clássicos à literatura infantil, para mostrar a diversidade da produção no feminino. A abertura será em abril, mas os encontros em torno dos livros ficam adiados para depois da pandemia.

 

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