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Little Tomodachi (ともだち)

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18
Ago21

Um planeta barulhento: já não é possível encontrar locais sem ruído humano

Niel Tomodachi

Há três décadas que Gordon Hempton os procura. Sabe que não existem, mas quer dar-nos a conhecer os sítios mais silenciosos.

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Foi numa rotineira viagem no metro de Nova Iorque que o jornalista e professor George Foy esbarrou numa constatação: porque é que aceitamos viver no meio de tanto barulho?

Irritado pelo ruído de gritos, carruagens e avisos sonoros, parou para pensar. “Se este é o barulho levado ao seu nível máximo, qual é o lado oposto? O que é o silêncio absoluto e será que ele existe?”

A busca pelo silêncio que o levou a viajar pelo mundo e a consultar dezenas de especialistas deu origem a um livro, “Zero Decibels”, e a uma descoberta. Mas o norte-americano não foi nem é o único a ter a ambição de encontrar os locais mais silenciosos no planeta.

Antes de mais, é preciso estabelecer dois pontos cruciais. O primeiro é que esta não é só um exercício de curiosidade, mas um desafio humano. Vários estudos traçam a ligação entre a poluição sonora e diversos problemas de saúde, sejam eles mentais ou, por exemplo, cardiovasculares. O ruído humano é, também, prejudicial para a vida selvagem.

Por outro lado, é preciso estabelecer o que se quer dizer quando se fala em silêncio, neste caso silêncio natural — que é o ambiente sem ruído provocado pelos seres humanos, apenas preenchido pelos sons naturais. E são esses locais raríssimos que a organização sem fins lucrativos Quiet Parks International procura pelo mundo fora.

Os números avançados pela organização são claros. De acordo com a QPI, 90 por cento das crianças nunca terão a experiência de estar num ambiente com silêncio natural. E tudo graças à enorme exposição ao ruído humano, em terra, no ar — graças aos quase quatro mil milhões de passageiros em 2017 — e no mar — com um crescimento do tráfego marítimo de 400 por centro entre 1992 e 2014.

Encontrar os últimos locais onde apenas resiste o silêncio natural sem perturbação humana é um desafio mais complicado do que pareceria à partida. Envolve, claro, alguns critérios, nomeadamente o de ser um sítio onde gostaríamos de estar e de ser de fácil acesso. Logicamente, os mais inóspitos estão fora de hipótese. Mas mesmo esses têm um problema.

Ainda que viaje até os locais mais recônditos da Antártica, é provável que acabe por se cruzar com uma expedição, um navio ou acampamentos de cientistas. Os seus geradores e barulhos podem ser ouvidos a longas distâncias. E no deserto? Bem, os aviões que circundam o planeta são outro problema.

As gravações incríveis de Hempton estão disponíveis no Spotify
 

Qualquer avião comercial é audível a partir do chão e o ruído que deixa para trás pode espalhar-se a uma distância de mais de 160 quilómetros. O Pólo Norte é outra das rotas preferidas de aviões de longas distâncias.

Segundo Gordon Hempton, co-fundador da One Square Inch — nome da organização que viria a transformar-se na Quiet Parks International —, ninguém está a salvo do ruído, nem mesmo no meio da densa floresta amazónica, a 1.900 quilómetros da cidade mais próxima. Foi exatamente isso que registou o ecologista, que mesmo nesse local remoto, viu os microfones registarem a passagem de um a dois aviões por hora. “Mesmo que estejamos longe das estradas, nunca estamos demasiado longe das estradas nos céus”, explicava em 2014 à “BBC”.

É a busca por esse sítio raro e idílico que alimenta todos os que trabalham na QPI, que já certificou pelo menos um local selvagem e dois parques urbanos. Estes dois últimos, claro, medem-se perante critérios diferentes.

Encontrar estes locais em terra é uma tarefa dura, mas relativamente simplificada. Explicava em 2014 Hempton que parte do processo passa por identificar os sítios onde haverá inevitavelmente barulho. E esse processo de exclusão revela um mapa muito pequeno onde poderá ser possível fugir ao ruído humano.

Basta, desde logo, eliminar do mapa locais com luz artificial, bem como indústrias mineiras, campos agrícolas, estradas e rotas náuticas.

Identificados os locais, a QPI envia os seus peritos de microfones na mão para medir a qualidade do silêncio nestes locais remotos. São, atualmente, mais de 200 potenciais candidatos à certificação. No entanto, até hoje, só um mereceu a distinção.

Trata-se de uma área junto ao rio Zabalo, na floresta amazónica no território do Equador. Um local sob perigo iminente, alvo de novos desenvolvimentos urbanísticos e de operações da indústria mineira. Infelizmente, a certificação da QPI não é mais do que uma nota pública.

A organização espera, contudo, que a publicidade ajude a luta mediática necessária para garantir a proteção e preservação destes locais. Isso e, claro, o potenciar de um ecoturismo que convença as autoridades a manterem o estatuto de local de silêncio natural.

 

No caso dos parques urbanos, mereceram a distinção o Parque Nacional Yangmingshan, em Taiwan, e Hampstead Heath, em Londres, embora os especialistas reconheçam que esta seleção implica uma alteração dos critérios, menos exigentes em ambientes citadinos e que, portanto, admitem a existência de algum ruído de fundo.

A certificação é um trabalho duro. São necessárias horas e horas de gravações feitas nos locais, depois analisadas ao pormenor. Um zumbido leve de um avião pode deitar tudo a perder.

A definição de local silencioso que Hempton tem trabalhado ao longo das últimas três décadas assume, então, que um ruído humano haverá se surgir. E, portanto, classifica-os como silenciosos se neles se verificarem intervalos de 15 minutos sem interrupção humana — sendo que estas áreas terão que ter pelo menos três mil metros quadrados.

Ao fim de tantos anos de trabalho e com apenas um local registado, pode parecer uma tarefa infrutífera. Hempton tem uma explicação trágica: a de que já não existem sítios naturalmente silenciosos no planeta; e a de que os nossos ruídos, sejam de estradas, comboio, tráfego aéreo e marítimo, invadiram todos os recantos do planeta.

Não é possível, na sua opinião, permanecer num local sem que, a certa altura, um ruído de origem humana não se faça sentir. O que se pode certificar são os locais onde esses eventos são mais raros. E mesmo nas horas e horas de gravações feitas para classificar a área do rio Zabalo, um ocasional zumbido penetrava o silêncio.

“Não existem locais no planeta Terra que eu tenha visitado que não tenham sido afetados pelos ruídos humanos”, afirma à “BBC” o especialista em bioacústica Bernie Krause. “Por todo o planeta, não se passa um dia que não se ouça um destes sons.”

 

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