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Little Tomodachi (ともだち)

Little Tomodachi (ともだち)

13
Ago22

Afeganistão. "Usar a burca é como ser sepultada viva"

Niel Tomodachi

Passar a usar a burca foi "como se fosse sepultada viva", relatou uma afegã de 19 anos à agência Lusa a propósito do primeiro aniversário da retoma do poder no país pelos talibãs.

Afeganistão. "Usar a burca é como ser sepultada viva"

Zahra (nome fictício) só conhecia, até há um ano, o Afeganistão que resultou da ocupação dos Estados Unidos e dos aliados ocidentais, em 2001.

Vinte anos depois, em 15 de agosto de 2021, os talibãs reconquistaram o poder, prometendo, na altura, manter os direitos conquistados pelas mulheres, permitindo-lhes trabalhar, frequentar escolas e ter um papel nas decisões sobre o país.

O regresso dos talibãs aconteceu na sequência da retirada das tropas norte-americanas e aliadas do solo afegão, depois de o Presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, ter anunciado, em abril, o fim da guerra contra o terrorismo naquele país.

Apesar de considerar que a situação em que cresceu "não era a ideal", Zahra defendeu que a que resultou da saída dos ocidentais e do regresso ao poder dos talibãs "é muito, muito pior" e "chega para tirar a esperança" sobretudo às mulheres, raparigas e meninas.

As restrições impostas às mulheres começaram logo e muitas tiveram de deixar de trabalhar, afastar-se de cargos públicos, deixar as escolas e, a partir de 06 de maio passado, usar uma burca sempre que estiverem em público.

"Devem usar o 'chadri' [a burca] porque é tradicional e respeitoso", impôs um decreto publicado pelo regime talibã, adiantando que a obrigação abrange todas "as mulheres que não são nem demasiado jovens nem demasiado velhas" e que estas "devem velar o seu rosto quando encontram um homem que não é membro da sua família" de forma a evitar provocações.

A primeira vez que usou burca, Zahra sentiu "vergonha e só conseguiu olhar para o chão", e considera que "é isso mesmo que é pretendido, que as mulheres se sintam inferiores".

A burca não era estranha a Zahra, claro, e costumava ver muitas mulheres com aquele manto preto ou azul e rede nos olhos, mesmo no tempo do governo anterior. Mas nunca tinha usado e "tem medo de ter de a usar para sempre".

"É como se fosse sepultada viva", garantiu, defendendo vivamente que tem a certeza de que Deus não quereria isso para ninguém.

O medo é o sentimento mais presente na vida desta jovem afegã. Zahra contou que vive numa família só de mulheres, partilhando a vida com a sua mãe e a sua avó, que ainda se lembra de usar minissaia e passear sozinha com as amigas nas ruas de Cabul.

Mas isso "foi antes". Antes de os talibãs tomarem o poder, antes da imposição da 'sharia', o sistema jurídico do Islão tornado fundamentalista, e "antes de as mulheres serem consideradas pessoas de segunda categoria", lamenta Zahra.

"Agora, vivo com medo do futuro. Tive de abandonar a escola e temos muitas dificuldades financeiras", afirmou, acrescentando que a mãe não a quer obrigar a casar, mas "um dia, talvez tenha de aceitar o destino".

Como vive numa família só de mulheres, as dificuldades agravam-se quase todos os dias. Sair à rua é um processo complicado porque não tem em casa um 'mahram', um homem que a acompanhe e sirva de guardião aos olhos dos fundamentalistas. Embora confesse que a mãe às vezes arrisca, Zahra foi proibida de sair sem cumprir as regras.

"Elas têm medo por mim", explicou, referindo-se à mãe e à avó e admitindo que ela também tem.

Por isso, quando é absolutamente necessário sair, pede ajuda a um tio ou um primo, mas normalmente deixa-se ficar no seu quarto ou costura algumas coisas para "ajudar nas despesas".

A contrastar com as histórias que a avó conta dos anos em que era nova, quando o Afeganistão era mais parecido com um qualquer país da Europa, Zahra nem sonha em usar minissaia. Foi educada na modéstia e sempre cobriu a cabeça. "Mesmo que vivesse noutro lado, acho que não seria capaz".

Mas conduzir um carro é um sonho que tem desde pequena. "Ir para o trabalho a conduzir o meu próprio carro e a cumprimentar as pessoas na rua", descreve, referindo que reza todos os dias por esse momento.

"É um sonho de liberdade", concluiu.

 

29
Mar22

Mulheres afegãs proibidas de viajarem de avião sem um familiar masculino

Niel Tomodachi

Desde o seu regresso ao poder, a 15 de agosto de 2021, os talibãs anunciaram várias restrições à liberdade das mulheres. Das roupas à interdição da frequência no ensino médio, as mulheres afegãs estão cada vez mais arredadas da vida pública. Associações preparam manifestações

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Os talibãs ordenaram que as companhias aéreas no Afeganistão impeçam as mulheres de embarcar, a menos que estejam acompanhadas por um familiar do sexo masculino, uma nova restrição às liberdades das afegãs, muito afetadas nos sete meses que este grupo está no poder.

Desde o seu regresso ao poder, a 15 de agosto de 2021, os talibãs anunciaram várias restrições à liberdade das mulheres, geralmente aplicadas localmente, de acordo com as autoridades regionais do ministério para a Promoção da Virtude e a Prevenção do Vício.

O movimento islamita prometeu que apresentaria uma versão mais tolerante do rígido código de comportamento que o seu governo impôs no seu primeiro período no poder, de 1996 a 2001. Mas desde agosto que têm vindo a reverter duas décadas de avanços nos direitos das mulheres afegãs. Elas foram excluídas da maioria dos cargos públicos e do ensino médio. Além disso, elas estão também agora obrigadas a usar roupas de acordo com uma interpretação estrita do Alcorão.

As novas medidas contra as viagens das mulheres foram divulgadas poucos dias após o encerramento das escolas do ensino médio para meninas – apenas algumas horas após a reabertura, pela primeira vez, desde a chegada dos islamitas radicais ao poder.

Uma carta enviada por um executivo da Ariana Afghan aos funcionários da companhia aérea após a reunião com os talibãs – a AFP obteve uma cópia da mensagem – confirma que as novas instruções devem ser aplicadas a todos os voos. “Nenhuma mulher pode viajar em um voo local ou internacional sem um parente masculino”, lê-se no documento. A decisão foi adotada após uma reunião na quinta-feira entre representantes do Talibã, das duas companhias aéreas e autoridades migratórias do aeroporto, informaram à AFP os dois funcionários, que pediram anonimato. Dois agentes de viagens também confirmaram à agência noticiosa que pararam de emitir bilhetes para mulheres que viajam sozinhas. “Algumas mulheres que viajavam sem um familiar do sexo masculino não conseguiram embarcar em um voo da Kam Air, na sexta-feira, de Cabul a Islamabad”, afirmou um passageiro à AFP.

Recorde-se que os talibãs já tinham proibido as mulheres de viajarem sozinhas por estrada entre cidades caso o trajeto superasse os 72 quilómetros, mas o embarque em voos ainda não tinha sido restringido. Foi agora. Ainda não está claro se a regra também se aplica a mulheres estrangeiras, mas a imprensa local informou que uma mulher afegã com passaporte americano foi impedida de embarcar em um avião na semana passada.

Esta semana as associações de defesa dos direitos das mulheres no Afeganistão pretendem organizar manifestações, caso as escolas não retomem as aulas.

Os islamistas radicais também parecem ter iniciado uma repressão à imprensa local, que prosperou sob regimes anteriores apoiados pelos Estados Unidos. Nesta segunda-feira, 28 de março, na província de Kandahar, no sul, os serviços de inteligência talibãs executaram operações em quatro emissoras de rádio que tocam música e prenderam seis jornalistas. No domingo, 27, tinham ordenado a interrupção dos programas da BBC nas emissoras associadas do grupo britânico público de media.

Com agências

 

08
Dez21

"Não vamos desistir": rádio dá voz às mulheres afegãs

Niel Tomodachi

A partir de Cabul, a capital controlada pelos Talibãs, a Rádio Begum transmite as vozes das mulheres que têm sido silenciadas no Afeganistão.

O estúdio também é uma sala de aula

A estação preenche as ondas de rádio com programação para mulheres e feita por mulheres: programas educativos, leituras de livros e aconselhamento de ouvintes que telefonam a pedir ajuda. Por enquanto, operam com a permissão dos islamistas de linha dura que recuperaram o poder em agosto e limitaram a capacidade das mulheres para trabalhar e das raparigas para frequentar a escola.

"Não vamos desistir", prometeu Hamida Aman, de 48 anos, fundadora da estação de rádio, que cresceu na Suíça depois de a sua família ter fugido do Afeganistão, alguns anos após a invasão da União Soviética."Temos de mostrar que não precisamos de ter medo", sublinha Aman, que regressou após a destituição do primeiro regime dos talibãs em 2001 pelas forças estrangeiras lideradas pelos EUA. "Temos de ocupar a esfera pública".

Hamida Aman, fundadora da rádio

Veículo para as vozes

A rádio foi fundada a 8 de março, Dia Internacional da Mulher, deste ano, cinco meses antes de os Talibãs marcharem até Cabul e finalizarem a vitória sobre o Governo apoiado pelos EUA. A partir de um bairro da classe trabalhadora, a Begum continua a transmitir para Cabul e áreas circundantes - e ao vivo no Facebook.

"Begum" era um título nobre utilizado na Ásia do Sul e agora refere-se geralmente a uma mulher muçulmana casada.

"Esta estação é um ponto de acolhimento para as vozes das mulheres, a sua dor, as suas frustrações", afirma Aman. Os Talibãs autorizaram a emissora a permanecer ativa em setembro, embora com novas limitações. As cerca de dez funcionárias da Rádio Begum costumavam partilhar um escritório com colegas homens que trabalhavam numa estação de rádio juvenil, mas agora estão separados. Cada sexo tem o seu próprio piso e foi instalada uma grande cortina opaca em frente à zona das mulheres. A música pop que se ouvia foi agora substituída por canções tradicionais e "música mais calma"

Ainda assim, para estas mulheres, trabalhar na estação é um "privilégio", já que muitas funcionárias do governo foram impedidas de regressar aos locais de trabalho. Até ao momento, os Talibãs ainda não formalizaram muitas das suas políticas, deixando lacunas na forma como estas são implementadas em todo o país.

A maioria das escolas secundárias públicas para raparigas tem estado fechada desde a tomada de posse, mas duas vezes por dia, o estúdio de rádio assemelha-se a uma sala de aula. Quando a Agência France Presse os visitou, seis raparigas e três rapazes - todos com 13 ou 14 anos de idade - estavam debruçados sobre os seus livros, enquanto o apresentador dava uma lição de justiça social no ar.

"A justiça social opõe-se ao extremismo", disse a professora de 19 anos, estudante de jornalismo até há poucos meses. "O que é a justiça no Islão?" questionou ela.

"Begum" era um título nobre utilizado na Ásia do Sul e agora refere-se geralmente a uma mulher muçulmana

"Oportunidade de ouro"

Mursal, uma menina de 13 anos, tem ido ao estúdio para estudar desde que os Talibãs bloquearam a reabertura de algumas escolas secundárias e deixa um recado a outras meninas como ela: "A minha mensagem às raparigas que não podem ir à escola é ouvir atentamente o nosso programa, para usar esta oportunidade e oportunidade de ouro, por que podem não a ter novamente", explicou a jovem.

Mas nesta rádio também há programação e aulas para adultos. Numa dessas lições, a diretora da estação, Saba Chaman, 24 anos, leu a autobiografia de Michelle Obama em Dari. Chaman está também particularmente orgulhosa de um programa em que as ouvintes pedem aconselhamento psicológico.

Em 2016, apenas 18% das mulheres no Afeganistão eram alfabetizadas em comparação com 62% dos homens, de acordo com o antigo Ministério da Educação. "As mulheres analfabetas são como os cegos", disse uma mulher que não sabe ler na antena da Rádio Begum. "Quando vou à farmácia, dão-me medicamentos foram do prazo. Se conseguisse ler, elas não o fariam".

Alguns meses após a tomada do poder pelos Talibã, Aman encontrou-se com o porta-voz Zabihullah Mujahid e disse-lhe que a rádio estava "a trabalhar para dar voz às mulheres". Ele foi "muito encorajador", afirmou, mas pouco se sabe sobre o que vai acontecer.

 

Mas o futuro é incerto.

Em setembro, a principal estação de televisão independente do país, Tolo News, noticiou que mais de 150 empresas tinham fechado por causa de restrições e problemas financeiros e, desta forma, a Rádio Begum já não recebe receitas publicitárias. Se não forem recebidos fundos no prazo de três meses, as vozes destas mulheres desaparecerão das ondas de rádio do Afeganistão.

"A minha única causa de esperança neste momento é saber que estou a fazer algo importante na minha vida para ajudar as mulheres afegãs", concluiu Chaman.

(S)

26
Out21

Catarina Furtado sobe ao palco principal da WebSummit pelos direitos das mulheres

Niel Tomodachi

A apresentadora vai abordar o tema do ativismo feminista no evento que decorre na Altice Arena (Lisboa), de 1 a 4 de novembro.

Enquanto Embaixadora de Boa Vontade do UNFPA, Fundo das Nações Unidas para a População,  Catarina Furtado vai participar naquele que é o maior evento tecnológico do mundo, a WebSummit 2021. A informação foi confirmada esta terça-feira, 26 de outubro.

No dia 3 de novembro às 16h10, no palco principal da WebSummit, irá acontecer uma conversa entre Catarina Furtado e Sofia Nunes, co-fundadora da Mambu, com moderação de Charlotte Jee, jornalista da MIT Technology Review.

A apresentadora deverá chamar a atenção para a importância dos meios e tecnologias digitais no combate às desigualdades, às violências e discriminações em matéria de género, saúde sexual e reprodutiva, direitos e oportunidades.

Em discussão, estará também a relação entre o ativismo feminista e as redes sociais e, nesse sentido, a Embaixadora do UNFPA irá aproveitar a ocasião para desafiar todos e todas a utilizar o digital como megafone de reivindicação e watchdog, contribuindo para um mundo mais justo e igualitário, promovendo os direitos humanos.

O evento deste ano está marcado para a Altice Arena, em Lisboa, entre 1 e 4 de novembro. A comediante Amy Poehler, o presidente da Microsoft Brad Smith, a comissária europeia Margrethe Vestager e o jogador de futebol Gerard Pique irão juntar-se aos mais de mil oradores, às cerca de 1250 startups, aos 1500 jornalistas e mais de 700 investidores, numa cimeira na qual serão discutidos temas como a importância da tecnologia na sociedade.

 
22
Out21

Voltar a ser virgem para sobreviver no Afeganistão

Niel Tomodachi

Fugir e desonrar a família ou morrer a tentar amar. Chegar ao casamento não virgem é uma sentença de morte para as mulheres afegãs, obrigadas a recorrer a cirurgias de reconstrução do hímen. Os testes de virgindade são pedidos com frequência pelas autoridades e por familiares.

No Afeganistão, as mulheres solteiras não podem ter relações sexuais

Têm apenas 22 anos e, às costas, o peso de um crime já cometido - relações sexuais entre solteiros - e de um segundo que sonham cometer: fugir do país. Embora este último não esteja tipificado na lei afegã, merece igual reprovação, numa sociedade que reprime, persegue e castiga os jovens que ousam sonhar.

Com o regresso da força talibã ao poder, ao fim de 20 anos, a história de amor de Leila e Ehsan complica-se. O casal aceitou falar com o "El País" - que por motivos de segurança lhe atribuiu nomes fictícios - mas não esconde o medo: as suas vidas estão em perigo. Imaginar uma vida a dois em Cabul, com independência e um futuro livre é, para eles, quase uma utopia.

Numa altura em que, com a criação do Emirado Estado islâmico, o Ministério da Mulher acaba de desaparecer (substituído por uma espécie de "polícia moral" que promove a virtude), Leila decidiu submeter-se a uma cirurgia ginecológica para reconstruir o hímen. Voltar a ser virgem por não acreditar que os ventos possam mudar a seu favor.

Tem casamento marcado, daqui a seis meses, com o noivo que a família lhe escolheu e, se assim não fosse, estaria a desonrar ambas as famílias, explica, de forma crua, a estudante de Tecnologia da Saúde, fazendo o gesto de cortar o pescoço.

As provas de virgindade continuam frequentes no Afeganistão, não só a pedido das autoridades mas das próprias famílias, confirmou Heather Barr, responsável da área das mulheres da "Human Rights Watch". Daí a nobreza do trabalho de Shakila, a médica, de 30 anos, que operou Leila e tantas outras jovens. "Quero ajudar as meninas a terem uma vida livre e feliz", sublinhou. "É por isso que é tão importante para mim restaurar-lhes o hímen. Temos uma religião que proíbe as raparigas de fazerem sexo sem serem casadas. E quem não casa tem de ficar com o hímen intacto", explicou, assumindo que vive apavorada que alguém (incluindo o próprio marido) descubra esta vertente do seu trabalho.

Nos últimos sete anos, Shakila, que trabalha num hospital privado, já fez mais de 70 cirurgias ginecológicas do género. Utiliza os seus próprios instrumentos - num procedimento que considera simples e sem riscos - e aceita a vida dupla porque sabe que está a salvar vidas. "Eles podem matá-las". Cada intervenção ronda os 430 euros mas, na maior parte das vezes, não consegue cobrá-los porque as pacientes não têm dinheiro. Além de ser contactada pelas adolescentes, muitos pais recorrem aos seus serviços, sobretudo em caso de violação.

Segundo dados da "Human Rights Watch", em 2012 havia cerca de 400 adolescentes e mulheres presas, no Afeganistão, por crimes relacionados com a moral. Punição que as autoridades pretendem que sirva de exemplo a todas as raparigas que tentam evitar casamentos forçados, violações e outro tipo de abusos.

É por isso que Leila não expressa grande reação quando Ehsan garante ao "El País" que vai lutar para salvar este amor. "Temos de encontrar uma maneira de ficar juntos", atira o estudante de Economia. E o tempo está a esgotar-se.

 

21
Ago21

"Não se pode dar nem um euro" a quem não respeita direitos das mulheres

Niel Tomodachi

A presidente da Comissão Europeia defendeu hoje que "não se pode dar um euro que seja de ajuda humanitária a regimes que negam às suas mulheres os seus direitos, liberdades e o acesso ao trabalho e aos estudos".

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Em conferência de imprensa em Madrid, à margem da visita a um centro de acolhimento para os funcionários afegãos das instituições da União Europeia (UE), acompanhada pelo primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez, e pelo presidente do Conselho Europeu, Charles Michel, Ursula von der Leyen sublinhou que não há um reconhecimento político do novo regime afegão, admitindo, no entanto, contactos operacionais.

"Não há conversações políticas com os talibãs, não há reconhecimento dos talibãs, mas temos, claro, contactos operacionais com os talibãs, o que é algo completamente diferente", disse a responsável, precisando que estas conversas visam garantir o trânsito para o aeroporto das pessoas que querem sair do Afeganistão.

Na conferência de imprensa em Madrid, a responsável salientou que "os milhões de euros de fundos europeus para ajuda ao desenvolvimento estão condicionados ao respeito pelos direitos humanos, das minorias e das mulheres e meninas".

Ursula von der Leyen acrescentou: "Podemos ouvir os talibãs, mas vamos avaliá-los pelos seus atos; a situação é muito pouco clara".

O centro de acolhimento fica na base militar de Torrejon de Ardoz, perto de Madrid, e pode acolher mil pessoas.

Os talibãs conquistaram a capital do Afeganistão, Cabul, no domingo, culminando uma ofensiva iniciada em maio, quando começou a retirada das forças militares norte-americanas e da NATO do país.

As forças internacionais estavam no país desde 2001, no âmbito da ofensiva liderada pelos Estados Unidos contra o regime extremista (1996-2001), que acolhia no seu território o líder da Al-Qaida, Osama bin Laden, principal responsável pelos atentados terroristas de 11 de setembro de 2001.

A tomada da capital põe fim a uma presença militar estrangeira de 20 anos no Afeganistão, dos Estados Unidos e dos seus aliados na NATO, incluindo Portugal.

Depois da tomada do poder, as forças talibãs proclamaram o Emirado Islâmico, em Cabul, tendo afirmado desde o princípio da semana que não procuram exercer atos de vingança contra os antigos inimigos e que estão dispostos à "reconciliação nacional".

Os talibãs já disseram que há "muitas diferenças" na forma de governar, em relação ao seu período anterior no poder, entre 1996 e 2001, quando impuseram uma interpretação da lei islâmica que impediu as mulheres de trabalhar ou estudar e que puniu criminosos de delito comum com punições severas como amputações ou execuções sumárias.

 

20
Ago21

Shamsia Hassani: As ilustrações que espreitam pelo véu do futuro do Afeganistão

Niel Tomodachi

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Shamsia Hassani pinta “com um coração partido”. A “primeira artista urbana do Afeganistão”, como se auto-intitula, está habituada a criar sobre a destruição. Quase todos os murais que deixou nas ruas de Cabul são protagonizadas por uma mulher — uma imagem que os taliban poderão querer começar a apagar das ruas da capital afegã. 

Uma entrevista a uma jornalista de uma popular televisão privada e as declarações vagas sobre os direitos das mulheres “dentro do quadro do Islão​” não convenceram as afegãs, associações feministas e estrangeiros que assistiram com preocupação à ocupação do Palácio Presidencial de Cabul pelo grupo fundamentalista. Nos últimos dias, há relatos de protestos e tiros contra manifestantes que exigem manter a bandeira do país. Jornalistas afegãos também dizem ter sido espancados. 

Nas redes sociais, entre pedidos de ajuda de organizações não-governamentais internacionais e petições para abrir rotas seguras de migração e investir mais no apoio a pessoas refugiadas, têm sido partilhados relatos e ilustrações de mulheres, um dos grupos da população que mais teme uma regressão de direitos conquistados nos últimos 20 anos, desde o acesso à escolaridade ao direito ao trabalho ou à participação política. Em muitas das imagens é retratado o temido regresso da obrigatoriedade do uso de burqa, o véu completo com uma rede na zona dos olhos por onde muitas mulheres não querem ser forçadas a espreitar. 

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20
Ago21

Afeganistão. Mulheres desafiam talibãs exigindo os seus direitos

Niel Tomodachi

Algumas mulheres afegãs, com medo do regresso das restrições impostas no anterior regime, começam a desafiar os talibãs com protestos públicos exigindo ser incluídas no Governo que está a ser formado e o direito de continuarem a trabalhar.

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São cada vez mais as imagens de mulheres brandindo cartazes e divulgando palavras de ordem contra os talibãs em todo o Afeganistão, um símbolo da resistência de jornalistas, ativistas e trabalhadoras que se opõem a retroceder àquela obscura era de repressão.

Um grupo de trabalhadoras de departamentos governamentais e ativistas saiu à rua em Cabul para pedir ao movimento talibã papéis no novo Governo, assim como a manutenção dos seus empregos em escritórios estatais, noticiou hoje o canal afegão Tolo.

"O povo, o Governo e qualquer funcionário que vá formar um Estado no futuro não pode ignorar as mulheres do Afeganistão. Não desistiremos do nosso direito à educação, do direito ao trabalho e do nosso direito à participação política e social", disse ao canal televisivo a ativista Fariha Esar.

As manifestações foram reduzidas, mas vão ganhando força à medida que passam os dias, quando muitos recordam o regime talibã de entre 1996 e 2001, altura em que as mulheres não podiam trabalhar e as meninas não podiam ir à escola, e eram reclusas dentro das suas casas.

No entanto, os talibãs asseguraram agora de forma insistente que as mulheres poderão continuar com os seus estilos de vida tal como até agora, voltando às escolas ou aos seus empregos, com os limites que o Islão estabelece, mas algumas trabalhadoras, sobretudo jornalistas, estão a denunciar que, na prática, essa promessa não está a ser cumprida.

"Queria voltar a trabalhar, mas lamentavelmente [os talibãs] não me deixaram. Disseram-me que o regime mudou e não se pode trabalhar", declarou a jornalista de televisão Shabnam Dawran num vídeo amplamente difundido na quinta-feira, uma denúncia que contrasta com a imagem da passada terça-feira, dois dias após a tomada de Cabul, de uma repórter da Tolo News a entrevistar um dirigente talibã.

O coordenador do Comité para a Proteção de Jornalistas no Sul da Ásia, Steven Butler, condenou as medidas de "despojar os órgãos de comunicação social públicos de proeminentes mulheres 'pivots' de notícias, [o que] é um sinal sinistro de que os talibãs do Afeganistão não têm qualquer intenção de cumprir a sua promessa de respeitar os direitos das mulheres".

Durante o anterior "reinado" dos talibãs no Afeganistão, jogos, música, fotografia e televisão eram proibidos; as mãos eram cortadas aos ladrões, os assassinos eram executados em público e os homossexuais, mortos; as mulheres estavam proibidas de trabalhar e de sair à rua sem um acompanhante do sexo masculino e as meninas, de ir à escola; e as mulheres acusadas de adultério -- sendo também consideradas adúlteras as que tivessem sido violadas -- eram chicoteadas e apedrejadas até à morte.

Desta vez, um porta-voz dos talibãs, Suhail Shaheen, afirmou à estação televisiva britânica Sky News que a 'burqa', a veste cobrindo todo o corpo e o rosto com uma rede em tecido ao nível dos olhos, já não será obrigatória.

Apresentando-se como mais moderados, os talibãs parecem estar a ter uma receção internacional menos hostil que há 20 anos, quando apenas três países (Paquistão, Emirados Árabes Unidos e Arábia Saudita) reconheceram o seu regime, embora até agora ainda nenhum país o tenha feito.

 

16
Ago21

Mulher em Cabul. "Terei de queimar os últimos 24 anos da minha vida"

Niel Tomodachi

Uma jovem mulher descreveu, ao Guardian, o domingo passado e aquilo em se tornou a sua realidade como mulher afegã numa sociedade controlada pelos talibãs. "Nunca esperei que ficássemos privadas dos nossos direitos básicos de novo e que regredíssemos 20 anos", escreveu.

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entrada das forças talibãs em Cabul, no domingo, tem implicações para todo o país, mas há uma faixa da população que fica particularmente vulnerável: as mulheres e as meninas, que, assim como aconteceu na primeira ocupação do movimento radical, serão colocadas estritamente ao serviço da família (do homem) e impedidas de ter acesso à educação.

Uma residente em Cabul, estudante, escreveu um artigo para o Guardian, onde descreveu os acontecimentos de domingo, apanhada de surpresa à ida para a faculdade. Foi avisada para fugir, porque os talibãs estavam já na cidade e iriam bater em mulheres sem burqa (cobertura facial).

"Queríamos ir para casa, mas não podíamos usar os transportes públicos. Os motoristas não nos deixavam entrar nos carros, porque não queriam a responsabilidade de transportar uma mulher", explicou a mulher, que não foi identificada.

Enquanto tentava fugir, alguns homens riam do desespero das mulheres: "Corre e põe o chadari [burqa]"; "São os vossos últimos dias nas ruas"; "Um dia, ainda me caso com quatro de vocês".

 

A mulher replica, também, as palavras da irmã, que trabalhava num escritório. "Desliguei o computador com o qual ajudei o meu povo e comunidade durante quatro anos com muita dor. Deixei a secretária com lágrimas nos olhos e disse adeus às minhas colegas. Percebi que foi o último dia no meu trabalho".

Com "dois cursos a ser tirados em simultâneo nas duas melhores universidades do Afeganistão", a mulher indica que naquele domingo acabou tudo. "Trabalhei dia e noite para me tornar na pessoa que sou hoje, e esta manhã, quando cheguei a casa, a primeira coisa que eu e as minhas irmãs fizemos foi esconder os nossos bilhetes de identidade, diplomas e certificados. Foi devastador".

"Agora, terei de queimar tudo o que consegui nos últimos 24 anos da minha vida. Ter bilhete de identidade ou prémios da universidade americana é arriscado, agora", disse, acrescentando que deixaram de haver empregos para mulheres no Afeganistão.

"Nunca esperei que ficássemos privadas dos nossos direitos básicos de novo e que regredíssemos 20 anos", escreveu.

Recorde-se que, no domingo, depois de o presidente Ashraf Ghani ter abandonado o Afeganistão, os talibãs entraram em Cabul e colocaram fim a uma campanha militar de duas décadas em que os Estados Unidos e aliados, incluindo Portugal, tentaram transformar o país, sem êxito. As forças de segurança afegãs, treinadas pelos militares estrangeiros, colapsaram.

Milhares de afegãos, em Cabul, tentam fugir do país e muitos dirigiram-se para o aeroporto internacional onde a situação é caótica.

16
Abr21

ONU denuncia "fome, execuções e violações de mulheres" no Tigray

Niel Tomodachi

Militares e milícias armadas continuam a cometer atrocidades contra a população da região etíope de Tigray, incluindo execuções e violações de mulheres, e há registo de mortes por fome, afirmou hoje o secretário-geral adjunto da ONU.

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Num briefing ao Conselho de Segurança das Nações Unidas sobre a situação na província etíope palco de um conflito desde novembro de 2020, o secretário-geral adjunto Mark Lowcock, responsável pelos assuntos humanitários, de conta de "um agravamento da crise humanitária", na ausência de um cessar-fogo, sendo necessário "aumentar significativamente a assistência" à população. 

Pelo menos 4,5 milhões dos quase seis milhões de habitantes de Tigray precisam de ajuda humanitária, e o próprio governo etíope calcula que 91% da população precisa de ajuda alimentar de emergência, disse Lowcock, citado pela AFP.

Sobre os relatos de violação sexual de mulheres, o responsável da ONU disse que na maioria dos casos são cometidas por homens uniformizados, das Forças De Defesa Nacional da Etiópia, mas também por militares da Eritreia - que entraram no país em apoio ao governo etíope contra uma sublevação da minoria tigray - e ainda por forças especiais da etnia amhara e outros grupos armados irregulares ou milícias.

"Não há dúvida de que a violência sexual é usada neste conflito como uma arma de guerra, como um meio para humilhar, aterrorizar e traumatizar uma população inteira hoje e na sua próxima geração", disse Mark Lowcock no briefing à porta fechada, apelando à cessação das hostilidades. 

Quanto aos militares da Eritreia a operar na região, afirmou, devem "acabar com as atrocidades e retirar-se", não se ficando pelo anúncio de que irão sair, como até agora.

"Infelizmente, devo dizer que nem a ONU nem qualquer uma das agências humanitárias com as quais trabalhamos viram provas da retirada da Eritreia", ao contrário do que o Governo etíope havia anunciado, adiantou. 

"Ouvimos alguns relatos de soldados eritreus que agora usam uniformes das Forças de Defesa da Etiópia, (...) mas independentemente do uniforme ou insígnia, os trabalhadores humanitários continuam a relatar novas atrocidades que acreditam estar a ser cometidas pelas forças de defesa da Eritreia", disse Lowcock.

O secretário-geral adjunto da ONU adiantou que "recebeu esta semana um primeiro relatório sobre quatro pessoas deslocadas que morreram de fome", com as agências humanitárias no terreno a registarem dificuldades em ter acesso à população, devido aos combates intermitentes e falta de meios, estando o número de deslocados calculado em 1,7 milhões.

A Amnistia Internacional denunciou hoje que alegados soldados eritreus mataram pelo menos três pessoas e feriram outras 19 ao dispararem sobre civis na região de Tigray.

Segundo testemunhos recolhidos pela Amnistia Internacional, os soldados eritreus, reconhecíveis pelos seus uniformes, abriram fogo sobre os residentes numa das principais ruas da cidade de Adwa, perto da estação de autocarros.

Os testemunhos confirmam os relatos da organização Médicos Sem Fronteiras (MSF).

A Amnistia Internacional pediu uma investigação internacional ao ataque e, a nível mais geral, às violações dos direitos humanos, incluindo possíveis crimes de guerra e crimes contra a humanidade, que possam ter acontecido desde o início do conflito em Tigray, em 04 de novembro.

O executivo da Eritreia negou, anteriormente, relatos de abusos por soldados eritreus contra civis, incluindo massacres e violações.

O incidente ocorre duas semanas depois de o primeiro-ministro etíope, Abiy Ahmed, ter anunciado o início da retirada das tropas eritreias da região.

Abiy Ahmed, Prémio Nobel da Paz em 2019, lançou uma intervenção militar em 04 de novembro para derrubar a Frente de Libertação do Povo Tigray (TPLF), o partido eleito e no poder no estado, e declarou a vitória em 28 de novembro, ainda que os combates continuem.

 

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