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Little Tomodachi (ともだち)

Little Tomodachi (ともだち)

21
Mai21

Parte dos cães adotados no Porto adoeceu quando confinamento acabou

Niel Tomodachi

O confinamento em 2020 trouxe associado um 'boom' de pedidos de adoção de animais na região do Porto, uma solução que associações contactadas pela Lusa revelaram ter causado problemas de saúde, sobretudo aos cães, assim que o país desconfinou.

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Os efeitos colaterais da chegada da covid-19 pesaram também na vida dos animais adotados no primeiro trimestre de 2020, depressa passando das 24 horas de companhia humana durante o confinamento para 12 horas de solidão assim que as pessoas retomaram as suas rotinas profissionais e escolares, situação que segundo Lígia Andrade, da Associação Midas, "traumatizou os animais".

"A partir de março de 2020, houve um 'boom' de pedidos de animais para adoção e, no nosso caso, porque já tínhamos confinado, apenas tratamos as adoções que haviam chegado antes do país fechar", explicou à Lusa a responsável da associação de Matosinhos.

Nesse contexto, criaram a campanha "O animal não é apenas para confinar", sensibilizando as pessoas para a "responsabilidade que é adotar um animal", disse Lígia Andrade.

"Atualmente, estamos a receber muitos pedidos para entregar animais, alegando as pessoas que os encontraram, recolheram ou adotaram, sendo que esses animais nem sequer têm um ano de idade, ou seja, foram para as famílias após a chegada da pandemia e agora as pessoas querem entregá-los", observou.

Entre os motivos invocados, descreveu, estão o "mudar de casa, foram despejados ou que vão emigrar", contou a responsável da associação que anualmente entrega "300 animais para adoção" e apresenta uma "taxa de devolução inferior a 1%".

"São muitos por dia, muitos pedidos de ajuda da mais variada ordem. Até houve casos de cães cujos donos tinham morrido por causa da covid-19, como aconteceu em março e abril deste ano", acrescentou.

Conclui Lígia Andrade que "a covid-19 ajudou a inflacionar o problema".

"Findo o confinamento, as pessoas retomaram os seus ritmos normais, indo trabalhar ou para a escola e o animal passa a ser um empecilho, passando de um cenário de 24 horas na companhia dos humanos para 12 horas de solidão, o que os faz entrar em depressão, sendo que não têm a nossa capacidade para o manifestar", disse.

Ângela Lima, do Cantinho do Tareco, um gatil na Maia, viveu em dobro o aumento da realidade em 2020, confirmando à Lusa ter aumentado o número de gatos adotados, mas também de animais recolhidos, uma missão para a qual a associação que integra contou com uma ajuda extra.

"Tivemos muitas adoções de gatos em 2020, mas também acolhemos mais gatos que o normal, pois conseguimos arranjar famílias de acolhimento temporário para ficarem com as ninhadas", explicou.

Questionada sobre se tinha recebido pedidos de devolução de gatos alegando que estes passaram a estar sozinhos em casa, a responsável minimizou a questão.

"A solidão nos gatos não se manifesta da maneira agressiva como a que é descrita no caso dos cães. Os gatos são mais independentes e, ao mesmo tempo, mais reservados", sublinhou.

A Cerca - Abrigo dos animais abandonados, na Póvoa de Varzim, segundo a responsável Raquel Nobre, optou por antecipar o problema e não entregou nenhum animal para a adoção assim que o país fechou.

"Apercebemo-nos que, como as pessoas estavam em casa, ter um animal por perto fazia-lhes bem para ultrapassar o confinamento. O problema é que o regresso à normalidade iria fazer com que o animal acabasse por ficar sozinho e desatasse a roer, a fazer asneiras, a fazer barulho e acabaria por ser devolvido", disse à Lusa a diretora.

16
Mar21

Dicas para curtir o Dia do Pai em casa

Niel Tomodachi

diadospais-guialisboa-lisboa-dicas-confinamento-coEm tempos de confinamento, organizamos algumas dicas para que esta data especial, comemorada no dia 19/03, não passe em branco: Incentivamos a troca de carinho e o amor dentro de casa. Sendo assim, selecionamos algumas atividades, bem divertidas, que podem envolver toda a família em momentos de confraternização e harmonia.

Dicas offline:
– Jogos de tabuleiro, de cartas e de adivinhação;
– Brincadeiras como: esconder, pegar, vestir roupas o avesso, se fantasiar, contar histórias com fantoches feitos de meias, fazer bonecos com a sombra das mãos, virar cambalhota…
– Ler livros e contar histórias,
– Rever fotos antigas e relembrar momentos;

diadospais-guialisboa-lisboa-dicas-confinamento-coDicas na tv:
– Assistir desenhos e séries com muita pipoca, colinho e carinho;

Dicas na internet: Separamos alguns sites para vocês navegarem.

tempojunto.com
– Por meio da brincadeira, contribui para o desenvolvimento das crianças

escolavirtual.pt
– A Escola Virtual é uma plataforma de estudo muito interessante que cria dinâmicas com outros alunos.

historiasparaosmaispequeninos.wordpress.com
contadoresdestorias.wordpress.com
– Português (ler histórias em voz alta aos mais pequenos):

diadospais-guialisboa-lisboa-dicas-confinamento-co

– Programação e jogos:
blockly.games
dkfindout.com/uk
tempojunto.com
escolavirtual.pt
contadoresdestorias.wordpress.com
historiasparaosmaispequeninos.wordpress.com
blockly.games
dkfindout.com/uk

Esperamos que estas dicas possam tornar, não só o Dia dos Pais mas todos os outros, mais divertidos com os vossos filhos. E assim, tornar este período difícil mais leve para os mais pequenos e com o máximo de tranquilidade possível para todos.

(S)

06
Mar21

Alfarrabistas entre o desalento e a revolta à porta fechada

Niel Tomodachi

Os alfarrabistas do Porto oscilam entre o desalento de ver os espaços próprios encerrados, atrás de grades e estores descidos, e a revolta com a permissão de venda de livros em grandes superfícies comerciais.

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Se muitos temem o fecho de portas e já sentem na pele a quebra de vendas, que se deverá prolongar a curto e médio prazo, outros mantêm o otimismo, como afirmam à Lusa.

A responsável pela Paraíso do Livro, Amélia Coelho, dá voz à revolta de muitos no setor quando vê outros espaços, não exclusivamente dedicados à venda de livros, que o estão a fazer, enquanto os livreiros "estão retidos", como "prisioneiros".

Amélia Coelho teme pelo futuro dos alfarrabistas, que são negócios "independentes sem arcaboiço para aguentar", até porque se "já estava mau, com isto ainda pior".

"Ainda há pouco soube de um colega em que o cliente queria um livro da montra. Disse-lhe 'vá ter à esquina', e foi vendê-lo à esquina. Depois deu a volta por outro lado. Parece que estamos a roubar", descreve a responsável pelo Paraíso do Livro.

Na Rua José Falcão desde 2009, os dias de hoje são, diz, aqueles em que se trabalha de forma "completamente limitada", com a faturação em baixo e parte da clientela habitual sem se habituar à venda 'online'. "Nem dá para a renda", conclui.

"Se ao longo dos anos não fosse poupada, não tinha dinheiro nem para comer. O Governo só pensou nele. (...) Ponho-me a pensar: se o dinheiro acaba... É desesperante. Para quem trabalha por conta própria, é desesperante", lamenta, pedindo apoios e temendo pela continuidade da livraria, se o confinamento se prolongar muito mais.

A esperança numa reabertura para breve corre pelos corredores estreitos destes espaços, seja do Paraíso do Livro seja da Moreira da Costa, há mais de 70 anos instalada na rua do Avis.

Miguel Carneiro, a quinta geração ao leme do projeto, não esconde o desalento de ser esta uma das poucas vezes, em meses, em que abre as grades que escondem a livraria da cidade, para a reportagem da agência Lusa. Usa a ponta de um guarda-chuva para 'desemperrar' o lado direito.

No interior do pequeno espaço para clientes, que mal deixa imaginar o vasto armazém por debaixo, além do piso superior 'atulhado' de livros em estantes, Miguel explica que estiveram fechados nos primeiros 15 dias do confinamento, depois foram "catalogando algumas coisas", mas "é uma tristeza estar aqui dentro".

Uma encomenda "de uma quantidade enorme de livros, por uma quantia significativa", por um único cliente e durante o primeiro confinamento, deu "fôlego financeiro para aguentar o primeiro e o segundo" períodos em que estiveram, e estão, fechados.

Com "as transformações que a cidade teve", e com pouca gente na rua, o que Amélia Coelho do Paraíso dos Livros também lamenta, Miguel Carneiro teme que "as pessoas se desabituem a vir", e vaticina mesmo que os alfarrabistas possam perder 10 a 20% da clientela.

A proprietária da Livraria Varadero, Paula Cântara, tem outro problema para manter, como puder, o estabelecimento a funcionar, mesmo que apenas no ciberespaço, a partir da rua da Boavista.

"Os apoios não chegam, não há qualquer ajuda. Tenho uma filha menor e tenho de estar em casa, o trabalho é exclusivamente 'online', e os meus pais é que vão à livraria para tratar das coisas necessárias, porque senão seria completamente impossível", descreve.

Estes tempos, diz, têm sido bastante complicados e, sem "a possibilidade de venda ao postigo", que sempre 'apanhava' algum cliente que passava na rua que liga a Praça da República à rotunda da Boavista, a Internet dá para "manter à tona, mas muito dificilmente".

"Sem perspetiva de quando vão abrir", além de não ver passar "quase ninguém na rua", a estratégia da proprietária da Varadero é "manter [a livraria] enquanto for possível", depois de 20 anos no mercado.

Também Paula Cântara acha que esta fase é "muito mais pesada" para os alfarrabistas, porque os livros novos "têm publicidade ou estão nos 'tops'", enquanto nestes espaços "o cliente gosta de andar a ver, descobrir coisas novas".

O otimismo vai esmorecendo e o cenário "é realmente penoso" para os muitos alfarrabistas da baixa do Porto, com rendas altas, dificuldades que "se vão somando" e a economia sem reanimar, deixando um alerta: "Os senhorios nem sempre são pessoas de grande sensibilidade".

Na Rua Formosa, a Livraria Lumière usou a montra para um protesto silencioso, quando, em tantos outros sítios da Baixa, ela está tapada pelas grades ou pelos estores descidos, ocultando literatura portuguesa, almanaques e outros destaques que chamem a atenção de quem passa.

Com vários bens alimentares na montra, "já que as livrarias não podem vender livros", Cláudia Ribeiro, da Lumière, aludiu, como já tinha feito a Faz de Conto, em Coimbra, à possibilidade de se vender literatura em supermercados, grandes superfícies e noutros negócios, dos CTT a papelarias e lojas de tecnologia, após o decreto presidencial do estado de emergência e do confinamento regulado pelo Governo.

"Acho que as livrarias nunca deveriam ter encerrado, (...) porque acho o livro um bem essencial. (...) Protestei porque foi injusto, qualquer pessoa de bom senso acha que não foi justo", considera, à Lusa, desabafando que as vendas "baixaram imenso" num tipo de negócio em que "poder entrar é fundamental pela parte humana".

A duas ruas dali, na Dr. Alves da Veiga, fica a Livraria Manuel Ferreira, fundada em 1957, onde Herculano Ferreira descreve, à Lusa, uma habituação ao mercado digital que dura há uma década, que lhes permitiu não sentir tanto o impacto.

"Não consideramos que a circunstância da covid-19 tenha sido para nós particularmente prejudicial. Continuamos a vender 'online', como há muito tempo, e não sentimos o que muitos colegas poderão estar a sentir", aponta.

O alfarrabista lembra ainda que há uma tendência para "encontrar o mau da fita", e esse "é evidente que é a covid-19", mas há outros problemas: um mercado "completamente desregulado", a "concorrência desleal" pela Internet, com plataformas paralelas em que "ninguém paga impostos", e um "esquecimento e falta de sensibilidade" para o livro, patente há décadas.

Mas há mais quem mantenha o otimismo, mesmo com quebras, como António Duarte, da Homem dos Livros, quanto "mais não seja, pela adaptação do ser humano", afirma. "Isto não vai parar. É uma catástrofe, mas não é uma daquelas sem fim", assegura.

A paixão pelos livros, a resistência e a confiança no avançar da vacinação e dos cuidados da população fazem-no ter esperança, até porque há no setor livreiro "uma certa resiliência".

António Duarte deixou a construção civil na última crise e seguiu "a paixão", para abrir o espaço dedicado ao livro usado, mas também ao vinil e à arte, na rua Mártires da Liberdade.

"Abri para continuar e não para desistir. Não é uma crise como esta que me vai desmotivar", dispara, mantendo a perspetiva positiva, mesmo quando, há meses, uma inundação danificou parte do armazém, e houve obras durante várias semanas à porta do espaço.

Também a Livraria Térmita, que abriu em novembro de 2020, num antigo armazém de madeiras no Largo de Mompilher, garante que "vai continuar", ou não tivesse aberto numa altura em que já previam um novo confinamento geral. "Ou abríamos, ou nunca abriríamos. Preferimos arriscar", conta Hugo Brito.

Com pouco mais de 160 itens, entre livros e CDs, para venda na 'página web', até porque é preciso "mão de obra e tempo para colocar livros nas plataformas", mesmo que façam também uso das redes sociais, a Térmita lamenta que não possa apresentar uma programação cultural como tinha planeado, de exposições a concertos.

"Não critico a venda de livros nas grandes superfícies. Também não critico a venda de fruta nas frutarias. Por isso não posso criticar a venda de livros nas livrarias. (...) Se um supermercado pode vender fruta e as frutarias estão abertas, porque é que as livrarias pequenas não podem estar abertas?", questiona.

Ainda assim, reforça, a palavra de ordem é continuar. "Não somos facilmente demovidos das coisas", assevera.

 

12
Fev21

Voz Solidária permite ligar quem quer ajudar às pessoas que estão sós no confinamento

Niel Tomodachi

Qualquer pessoa pode doar a sua voz e o seu tempo ou inscrever-se para receber um telefonema amigo.

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O confinamento que atravessamos volta a desafiar e a retirar companhia àqueles que mais isolados estão. Para combater isso, a Cooperativa António Sérgio para a Economia Social (CASES) resolveu relançar o movimento “Voz Solidária: ligue a quem mais precisa”.

Esta iniciativa solidária tem como objetivo incentivar ao voluntariado e a doar a voz e o tempo para ajudar quem está mais sozinho e a precisar de companhia e de uma palavra amiga. Com a colaboração do OsSolidários.pt, que também são responsáveis por outros projetos como o Computador Solidário ou a Cama Solidária, este movimento já tinha sido criado no Natal de 2020 e volta agora a ser reativado.

“Foram realizadas cerca de seis mil chamadas e as Vozes foram solidárias por mais de 25 mil minutos. Entendemos que neste período de novo isolamento que estamos a viver, esta iniciativa poderá mais uma vez ajudar quem está mais sozinho”, explica em comunicado a vice-presidente da CASES, Carla Ventura.

Participar neste projeto é simples, qualquer pessoa pode ser voluntária e doar a sua voz. Para isso basta ligar para a linha do Voz Solidária (962 171 780) e do outro lado irá atender alguém que precisa da sua companhia. Se, por outro lado, acha que precisa de ouvir uma voz amiga, basta inscrever o seu contacto através do site do projeto. Em nenhum dos casos os contactos são conhecidos pela outra parte, a não ser que voluntariamente queiram dá-los um ao outro para voltar a falar.

Todas as informações sobre como participar do Voz Solidária estão disponíveis através da página do projeto.

 

09
Fev21

Covid-19. Amnistia denuncia que confinamento agravou violência de género em Moçambique

Niel Tomodachi

A aplicação de medidas de confinamento para o combate à Covid-19 em Moçambique agravou a violência de género no país, assim como no resto da África Austral.

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A aplicação de medidas de confinamento para o combate à Covid-19 em Moçambique agravou a violência de género no país, assim como no resto da África Austral, assinala um relatório da Amnistia Internacional (AI).

“Devido aos confinamentos impostos pelos países da África Austral, alguns lares pela região tornaram-se enclaves de crueldade, violação e violência para as mulheres e crianças presas com familiares abusivos e sem qualquer sítio para denunciar ou escapar ao perigo”, referiu a AI, num comunicado que acompanha o relatório “Tratadas como Peças de Mobília, A violência de género e a resposta à Covid-19 na África Austral”.

O diretor da AI para a África Oriental e Austral, Deprose Muchena, sublinhou que a pandemia de Covid-19 “suscitou um aumento da violência de género contra mulheres e raparigas na África Austral”. “Também amplificou os problemas estruturais existentes, como a pobreza, a iniquidade, crime, elevado desemprego e falhanços sistemáticos da justiça criminal“, acrescentou o responsável da organização não-governamental (ONG).

A AI registou que “os nocivos estereótipos de género embutidos nas normas sociais e culturais”, que sugerem que “as mulheres devem sempre submeter-se aos homens ou que um homem que bate na sua mulher o faz porque a ama”, têm alimentado o aumento da violência contra mulheres e raparigas na África do Sul, Madagáscar, Moçambique, Zâmbia e Zimbabué. Entre estes, África do Sul, Moçambique e Zimbabué foram os que se destacaram pela ausência de estruturas de apoio a vítimas de violência e abuso nas medidas de contenção da Covid-19.

No relatório, a ONG de defesa dos direitos humanos referiu que o estabelecimento do estado de emergência em Moçambique resultou numa crise económica, “em particular para os agregados familiares que viviam na precariedade” e que subsistiam através da economia informal.

As mulheres nesta situação, como empregadas domésticas, têm os seus rendimentos diários “absorvidos em despesas imediatas” e que, pela proibição de saírem de casa, “as suas fontes de rendimento secaram e as suas condições de vida tornaram-se cada vez mais difíceis”.Da mesma forma, “a redução nos rendimentos familiares intensificou a frustração, a tensão e o ‘stress’ nas famílias”, expondo-se o caso de uma vendedora ambulante que relatou ataques por parte do seu marido.

A diretora executiva do Fórum Mulher, Nzira de Deus, referida no relatório, registou um aumento do número de relatos de violência de género na televisão e rádio, remetendo para a morte de uma mulher, em 06 de junho, no distrito de Matola, província de Maputo, por parte do seu cônjuge — que “a seguir se matou também”.

Ativistas dos direitos humanos ouvidas pela AI mostraram-se preocupadas com a redução da capacidade dos transportes públicos em Moçambique, considerando que isto deixou “as mulheres expostas à violência de género”. “Um exemplo disso foi o caso da empregada do hospital central de Maputo, que chegou ao seu bairro a altas horas da noite devido à escassez dos transportes públicos, em 31 de maio de 2020, e foi roubada, torturada, violada e assassinada”, destacou o relatório.

Na África do Sul, as autoridades registaram, apenas no primeiro confinamento, 2.300 pedidos de ajuda devido a violência de género, tendo, por meados de junho, 21 mulheres e crianças sido assassinadas por parceiros íntimos. No Zimbabué, uma organização de apoio a vítimas de violência doméstica documentou 764 casos de violência de género nos primeiros 11 dias de confinamento nacional, valor que subiu para 2.768 em 13 de junho.

O aumento da pobreza devido às regras de confinamento foi “um fator fulcral para o aumento da violência de género” durante o recolhimento, tendo mulheres e crianças ficado mais dependentes de parceiros abusivos. Por outro lado, a Zâmbia registou, segundo dados das autoridades, uma diminuição da violência de género durante o período de confinamento face ao mesmo valor de 2019.

O país teve uma diminuição de 10% das queixas durante o primeiro trimestre, mas este valor “pode refletir que as mulheres não foram capazes de pedir ajuda, e não um declínio do número de casos”. Ainda assim, uma ONG zambiana reportou um aumento de casos de violência sexual no mesmo período.

A AI identificou várias barreiras colocadas a vítimas de violência de género para a justiça, nomeadamente a falta de confiança no sistema judicial e o trauma secundário, que surge quando relatam os casos às autoridades. No caso de Moçambique, muitas vítimas temem a apresentação de queixa, e correspondente abertura de inquérito, “devido à pressão da sociedade em tolerar a violência doméstica, a dependência financeira do perpetrador e a falta de confiança no sistema judicial”.

“Segundo organizações da sociedade civil, em alguns casos, os agentes da polícia foram acusados de desvalorizar queixas de violência de género porque as viram como assuntos de família e não crimes. O estigma à volta da violência sexual foi também citado como um fator contributivo para a falta de relatos”, salientou a AI.

É chocante que para muitos na África Austral o sítio mais perigoso para se ser uma mulher ou uma rapariga durante a pandemia de covid-19 seja em casa. É indesculpável. Os líderes da Comunidade de Desenvolvimento da África Austral (SADC) devem assegurar que a prevenção e a proteção das mulheres de violência de género e de violência doméstica são uma parte integral das respostas nacionais a pandemias e outras emergências”, defendeu Deprose Muchena.

Segundo os dados mais recentes do Centro de Controlo e Prevenção de Doenças da União Africana (África CDC), o número de infetados neste continente desde o início da pandemia é de 3.667.546 e o de mortes 95.075.

 
03
Fev21

"Coronation", o filme do confinamento em Wuhan proibido na China

Niel Tomodachi

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"Coronation" é o primeiro documentário sobre o SARS-CoV-2 em Wuhan. É assinado por Ai Weiwei. A metrópole chinesa com 11 milhões de habitantes, onde terá surgido este coronavírus, foi a primeira cidade a ser fechada pela pandemia e assistiu a um confinamento sem precedentes.

O artista chinês exilado em Londres apresenta um ângulo comovente da resposta chinesa à pandemia e do cidadão comum de Wuhan.

Tenho que fazer isto remotamente. Felizmente, temos muitos colegas, amigos, artistas, sócios e parceiros mais antigos que estão presos na cidade. Comecei a conversar com eles e pedi que filmassem as suas vidas, com câmaras, se tivessem iPhones ou se precisassem de algo pequeno...apenas para gravar as suas vidas.
Ai Weiwei 
Artista chinês
 

O filme oferece um ângulo raro sobre a experiência dos pacientes com Covid-19, mas a exibição do documentário está proibida na China.

 

02
Fev21

Proibição da venda de livros é "censório"

Niel Tomodachi

A associação de editores e livreiros acusa o Governo de ter uma atitude "proibitiva e censória" sobre o livro, promovendo a venda clandestina típica do Estado Novo, e avisa que o setor está à beira da primeira falência massiva.

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Este entendimento da Associação Portuguesa de Editores e Livreiros (APEL) decorre da sua incompreensão e surpresa perante a decisão do Governo de manter a proibição da venda de livros, no novo decreto do estado de emergência, contrariando assim aquilo que terá sido a "vontade mostrada pelo Presidente da República" e por "vários partidos com assento parlamentar".

"Nunca imaginei no século XX ver livros por baixo de sacos de plástico como se fossem lixo ou bens tóxicos. As pessoas ligadas ao setor sentem-se violentadas por essas imagens, mais ainda quando o Presidente da República deu possibilidade que fosse diferente. Mas o Governo não seguiu as recomendações do Presidente da Republica, o que é estranho, mantendo-se o livro inacessível a 80% da população", disse à Lusa o vice-presidente da APEL, Pedro Sobral.

Segundo o responsável, o argumento da venda 'online' não é justificação, porque praticamente só acontece nos grandes centros urbanos de Lisboa e Porto, "fora das grandes cidades as pessoas não têm acesso, a capacidade de compra 'online' ainda é muito baixa".

APEL afirma não compreender que num local de venda onde se pode comprar um telemóvel ou fruta, o acesso aos livros esteja vedado, sendo estes tão importantes para o conhecimento e informação como os jornais.

"As tabacarias que também vendem livros, podem vender revistas, jogos de azar e pastilhas elásticas, mas não podem vender livros. Temos relatos de livros vendidos debaixo do balcão. Voltámos ao Estado Novo. Estamos a falar de um livro, não de armas ou de drogas", lamentou Pedro Sobral.

Para o responsável, há uma "atitude proibitiva e censória sobre o livro, um bem que pode ser considerado fundamental".

APEL assinala que o argumento do Ministério da Cultura é que, com as livrarias encerradas, permitir que os espaços comerciais que permanecem abertos vendam livros, pode causar "desequilíbrio de mercado".

Esta é uma visão "errada", para os editores e livreiros, porque as livrarias têm as vendas 'online', o que "não funciona para um supermercado, porque no retalho não especializado dificilmente se encontram os livros pretendidos no site 'online'".

Acima de tudo, o argumento de não permitir desequilíbrio de mercado vai causar uma situação muito mais grave que é a de deixar um bem essencial vedado a toda a população e os editores "à beira de explodir e de não conseguir pagar a milhares de pessoas", afirmou.

"Seria fundamental a venda ao postigo, não vemos como isso pode potenciar a catástrofe que vivemos, mas pelo menos que sejam vendidos nos pontos que o estado de emergência permite estarem abertos. Estamos perante um confinamento de dois ou três meses", desabafou.

Mas mesmo assim, a APEL considera que se houvesse vontade política de resolver este problema, o Governo ter-se-ia reunido com a APEL e representantes do setor para tentar encontrar uma solução, que poderia passar, por exemplo, por apoiar os espaços fechados e deixar os abertos operar.

Esta pode ser a diferença entre "conseguir gerar uma receita mínima, permitir que os livros não sejam devolvidos em massa e aguentar sozinhos para ver pelo menos uma luz ao fundo do túnel", e "pôr em causa todo um setor".

"Estamos à beira da primeira falência massiva no setor, por não deixar funcionar o mercado dentro do enquadramento do estado de emergência. Isto é uma situação que não é compreensível", afirmou o vice-presidente da APEL.

Pedro Sobral recorda que no dia 8 de fevereiro as aulas 'online' vão ser retomadas e que haverá necessidade de comprar livros escolares.

APEL queixa-se das "ajudas absolutamente insignificantes" que têm sido destinadas ao setor do livro, mas sublinha que neste momento já nem está a pedir apoios, apenas que deixem os profissionais do setor trabalhar.

"Não entendo como foram destinados 15 milhões de euros para a comunicação social, 48 milhões para a cultura e, para este setor, primeiro foram destinados cerca de 500 mil euros, agora 600 mil euros e, simultaneamente, foram proibidos de vender nos locais que podem estar abertos", disse Pedro Sobral.

O responsável destacou que não põe em causa a importância dos valores atribuídos às outras áreas sob a tutela do Ministério da Cultura, "que provavelmente até são insuficientes. O que está em causa é a proporção".

setor que engloba "edição, gráfica e livreiros é o que maior numero de pessoas emprega e que traz mais valor acrescentado à economia portuguesa", lembrou.

Acresce a isto que "o Ministério da Cultura não apresentou uma política, uma ideia, uma estratégia para o incentivo à leitura e ao livro", acusou, lembrando que é à tutela que deveria caber a "função de apresentar uma estratégia para inverter isto".

Neste âmbito, elogiou as bibliotecas e os bibliotecários que, "com muito esforço", têm tentado manter-se a funcionar e a levar os livros até casa das pessoas: "Estão a substituir-se espontaneamente àquilo que é a função do Estado e da tutela".

"Pensei que este era um problema que tinha ficado definitivamente resolvido no 25 de Abril", acrescentou.

Os apoios anunciados pela ministra da Cultura, Graça Fonseca, no contexto do novo estado de emergência, de resposta à pandemia, na área do livro, está prevista a aplicação de 300 mil euros, no programa de aquisição de livros a pequenas e médias livrarias independentes, para distribuição pelas bibliotecas da Rede Nacional de Bibliotecas Públicas; e de mais 300 mil, numa linha de apoio à edição para editoras portuguesas, destinada a comparticipar financeiramente o custo de edição de livros.

Foi também anunciado o reforço das bolsas de apoio à criação literária, para 24, visando diretamente autores: 12 bolsas anuais, com valor de 15 mil euros cada, e 12 semestrais, com um valor de 7.500 euros cada, num total de 270 mil euros.

A Lusa questionou o Ministério da Cultura sobre os argumentos da APEL e a classificação do livro como bem de primeira necessidade, aguardando resposta.

 

01
Fev21

Vêm aí workshops online (e gratuitos) sobre saúde no confinamento

A iniciativa do Instituto Prof. Teresa Branco tem várias datas marcadas para fevereiro.

Niel Tomodachi

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O Instituto Prof. Teresa Branco, que é focado na gestão do peso, anti aging e medicina preventiva, vai promover uma série de workshops relacionados com a saúde, o bem-estar e a gestão do peso no confinamento. São gratuitos e de fácil acesso a toda a gente, desde que tenha um computador, tablet ou smartphone.

Para estes eventos, a Teresa Branco junta-se Sinthia Puttini, médica especialista em Medicina hormonal, Anti-aging e Medicina Ortomolecular. Durante as conversas, há espaço para perguntas e respostas, pelo que pode tirar todas as suas dúvidas.

Os workshops, que já vêm desde janeiro, acontecem agora via Teams e também no Instagram, por live. Em fevereiro, o primeiro encontro acontece no dia 4, quinta-feira, às 18 horas, no Instagram do Instituto Prof. Teresa Branco. O tema é “A relação entre o excesso de peso e a recuperação de doentes Covid”.

Este mês serão abordados ainda os temas “Dieta anti-inflamatória e suplementação como reforço da Imunidade” (12 de fevereiro, sexta-feira, no Teams), que necessita de inscrição online; “Os pilares essenciais da Gestão do Peso e da Medicina Preventiva” (dia 18, quinta-feira, no Instagram); e “Alimentos antioxidantes e a sua importância no Anti Aging” (dia 25, quinta-feira, no Teams), que também carece de inscrição.

Independentemente do tema, dia ou local virtual, o horário de início está sempre marcado para as 19 horas. A duração é de uma hora.

 

31
Jan21

Bibliotecas de Matosinhos levam-lhe os livros a casa durante o confinamento

Niel Tomodachi

Mas fazem mais do que isso: também vão disponibilizar online jornais e revistas de todo o mundo.

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Ficámos sem restaurantes, sem cinemas e sem teatros. Mas durante o confinamento, a cultura não tem que morrer. Para nos ajudar a passar o tempo durante este período difícil a Câmara Municipal de Matosinhos encontrou uma solução para nos colocar livros nas mãos.

Apesar de fechadas, as bibliotecas do concelho têm registado mais de 100 requisições por dia. Isso levou à criação de um serviço de entrega de livros ao domicílio que permite que os empréstimos continuem mesmo durante o confinamento.

Para usar este serviço é necessário que os leitores estejam inscritos nas bibliotecas municipais. Depois, basta aceder ao catálogo online, verificar se os livros que pretende estão disponíveis e enviar um email (bmfe@cm-matosinhos.pt) ou telefonar (22 939 0950) para agendar a entrega em casa, que é feita em dias úteis entre as nove e as 19 horas. Todo este processo é simples e seguro, sendo que os livros ficam em quarentena durante 48 horas quando regressam da casa dos leitores.

“Estamos a salvaguardar todas as questões de higiene e segurança que se prendem com esta operação, incluindo a desinfeção periódica das viaturas de entrega dos livros. A autarquia entende que, em período de confinamento, a leitura e a companhia dos livros podem ser determinantes para a saúde mental e emocional de muitas pessoas, pelo que consideramos que o esforço que está a ser feito compensa largamente”, explicou o vice-presidente e vereador da Cultura da Câmara Municipal de Matosinhos, Fernando Rocha.

Além da entrega de livros ao domicílio, a autarquia aposta no combate à desinformação e disponibiliza aos seus leitores o acesso a mais de 7.700 jornais e revistas nacionais e internacionais através da plataforma digital PressReader. Durante o confinamento e de forma a que todos possam ter acesso à informação, a inscrição como leitor vai poder ser feita, excecionalmente, através de email.

 

29
Jan21

O ilusório escape das redes sociais durante o confinamento

Niel Tomodachi

Fechados em casa, refugiamo-nos nos contactos virtuais para manter a tão desejada proximidade com os outros. E corremos o risco de pagar a fatura em solidão e dependência.

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Meses depois do confinamento massivo de março e abril do ano passado, uma grande parte dos portugueses volta agora a fechar-se em casa – ou pelo menos assim deveria ser. A Internet, e em particular as redes sociais, reaparecem como escape de tempos difíceis, até como ilusório tónico para dias de solidão.

É frágil a linha que separa uma ferramenta útil e proveitosa de uma tentação potencialmente perversa. E estaremos tão mais imunes quanto maior consciência tivermos dos riscos. Desde logo, o risco de vermos a ansiedade aumentada pela quantidade imensa de notícias e conteúdos sobre a pandemia a que estamos expostos continuamente.

Ou o risco da desinformação, à custa das fake news que proliferam pela web. Ou o risco do cyberbullying, facilitado por um potencial aumento da vulnerabilidade em tempos de dificuldade. Ou o risco de uma solidão que, ironicamente, se pode instalar de mansinho. Mesmo quando pensamos estar a combatê-la.

“É um efeito perverso. Achamos que estamos a ter mais contacto e relacionamento, que estamos acompanhados o dia inteiro, mas na prática não tocámos em ninguém”, realça Judite Alves Pinheiro, psicóloga clínica. É uma “falsa sensação de companhia”, que em nada substitui o papel essencial do contacto físico nos processos vinculativos.

“Horas seguidas de conversa online não reparam a falta do beijo e do abraço. As redes sociais virtuais jamais irão substituir as verdadeiras redes sociais, o grupo de amigos, o convívio em família. Aliás, detesto que se lhes chame redes sociais”, lamenta a especialista, que trabalha como psicóloga no Agrupamento de Escolas Joaquim de Araújo, em Penafiel.

A este propósito, Ivone Patrão, docente no ISPA (Instituto Superior de Psicologia Aplicada, Lisboa), aponta novos dados, relativos ao primeiro confinamento, recolhidos no âmbito do projeto “Geração Cordão”, que pretende ser uma resposta no âmbito da promoção da gestão saudável do uso das tecnologias.

“Três quartos dos inquiridos aumentaram para o dobro o tempo que passavam online, mas, destes 75%, a maioria admitiu que isso não os fazia sentir bem, que sentiam falta de estar com os amigos. Esta ausência do contacto pessoal custou-lhes muito.”

A reboque da solidão, chegam outros problemas, potencialmente mais graves. Para todas as faixas etárias. A dependência é um deles. José Azevedo, uma carreira de mais de 30 anos na área da Sociologia que complementa com a formação na área das Ciências da Comunicação, ressalva que, em relação aos efeitos concretos do confinamento, ainda estamos perante “um território não mapeado”, mas estabelece um paralelismo com outro tipo de eventos que nos pode servir de guia de entendimento para o que está em causa.

“Sabemos, por exemplo, que quando há um terramoto as pessoas tendem a ficar mais ligadas aos media. Sabemos também que em situações como a que estamos a viver, em que há incerteza, riscos, fragilidade económica, eventualmente fragilidade da nossa saúde, se gera um medo difuso e generalizado e que isso pode ter efeitos sobre os grupos mais frágeis em termos de saúde mental. Alguns de nós vão ficar mais deprimidos. Outros, que já tenham predisposição para isso, vão ter os comportamentos aditivos mais acentuados. Seja ao nível da comida, da bebida, do jogo online ou das redes sociais. É, no fundo, uma resposta de escapismo social.”

Não espanta, por isso, que a utilização da web – e em particular das redes – cresça em flecha durante este período. Há estatísticas registadas a nível internacional, durante o primeiro grande período de confinamento, que ajudam a constatá-lo.

Em março do ano passado, por exemplo, o Facebook reportou um aumento de utilizadores do serviço de chat na ordem dos 50%. No mesmo período, o WhatsApp foi 40% mais usado. Já num estudo desenvolvido na América do Norte, meses depois do início da pandemia, 72% dos utilizadores inquiridos admitiam que o consumo das redes tinha aumentado nesse período.

E ninguém nega que a web e as redes encerram virtudes difíceis de contestar (ainda mais neste período). Seja para assistir a aulas online ou ter reuniões de trabalho, para matar as saudades dos pais ou dos avós que queremos preservar a todo o custo mas a quem não queremos falhar, para manter o contacto com os amigos ou rir daquele meme que ajuda a aligeirar o fardo de uma pandemia com contornos dramáticos, para fazer exercício com o acompanhamento virtual de um personal trainer ou mesmo para aumentar conhecimentos, graças ao vasto leque de cursos que é possível encontrar atualmente na Internet. O difícil é encontrar um equilíbrio entre o aproveitamento dessas vantagens e a fuga à dependência.

Os jovens, esse grupo de risco

Mas o que é isto da dependência da tecnologia? Falamos de dependência quando está em causa um distúrbio que implica a incapacidade de controlar o uso da mesma, ao ponto de se tornar disfuncional e impactar a vida social, por vezes de forma devastadora. Judite Alves Pinheiro enumera algumas das potenciais consequências desta dependência, que muitas vezes surge associada a quadros depressivos.

Uma estimulação cognitiva permanente e excessiva, “com o inerente cansaço físico e mental”, a ansiedade (“a pessoa em estado de privação pode mesmo ter ataques de pânico”), os estados confusionais, a violência e a agressividade, a privação de sono, um défice de atenção e concentração ou até a alienação e a incapacidade de cumprir as rotinas diárias são alguns dos exemplos apontados pela psicóloga que teve oportunidade de constatar os traços de uma adição crescente quando, no ano passado, conduziu sessões de orientação vocacional via web.

“Uma das dificuldades do ensino à distância foi o facto de os alunos estarem a assistir às aulas e ao mesmo tempo nos jogos e nas redes sociais através do telemóvel.”
De facto, os riscos de desenvolver uma crescente adição às redes são particularmente notórios entre os mais jovens. Ivone Patrão admite isso mesmo.

“Sente-se mais nos jovens do que nos adultos, até porque nos adultos, tendencialmente, há mais aquele instinto de sobrevivência, de terem mesmo que trabalhar e por isso não poderem passar tanto tempo nas redes”, aponta a psicoterapeuta, lembrando que, segundo estudos prévios conduzidos pela sua equipa, 15 a 20% dos jovens estão dependentes de ajuda profissional para tratar a dependência à tecnologia.

A psicóloga ressalva que estes são precisamente os casos que constituem a exceção à regra de sentirem falta do convívio com os pares, mesmo passando mais tempo online. “Esses, que íamos vendo em consulta, durante as primeiras semanas de confinamento diziam que estavam ótimos. Porque já antes passavam muito tempo online e o confinamento, de alguma forma, veio diminuir os conflitos em relação a isso.”

A especialista mostra-se ainda particularmente preocupada com a possibilidade de o confinamento poder gerar casos de dependência da tecnologia em jovens que até aqui não a tinham. “Sobretudo porque muitos estarão mais vulneráveis do ponto de vista psicológico e o mundo online está mesmo ali à mão, é mais confortável. Os mais vulneráveis podem acabar a olhar para o mundo digital como uma zona de conforto.”

Sinais de alerta e um guia para desintoxicar

O problema é tanto mais relevante quanto a elevada probabilidade de se prolongar no tempo, como sublinha José Azevedo. “O que acontece com os comportamentos aditivos, de um modo geral, é que permanecem para além do período que os motivou. Ou seja, se tenho comportamento aditivo, ele tenderá a permanecer além da pandemia. É importante, por isso, que haja alguma prevenção desde já”, avisa o docente da Faculdade de Letras da Universidade do Porto, alertando para a necessidade de se apostar numa maior sensibilização para o assunto.

Enquanto isso, há dicas simples que podemos seguir para nos mantermos a salvo das consequências deste ilusório desconfinamento prometido pelas redes sociais, mesmo sem nos desligarmos totalmente delas (até porque em muitos casos, seja por motivos profissionais ou para manter contactos familiares, isso não será opção).

Desativar notificações, por exemplo, para contrariarmos a inevitável tentação de estarmos constantemente a ser sugados para as redes. Mas também impor-se a si próprio limites na utilização das mesmas – reservando-as, por exemplo, para um determinado período do dia depois de terminar uma tarefa importante – e apostar na procura de outros hobbies que nos mantenham a salvo dos ecrãs. Ou mesmo eliminar parte das aplicações do género, reduzindo o stock de apps do telefone ao essencial.

Diretamente para os pais que possam andar preocupados com a propensão incontrolável dos filhos para as redes em tempos de confinamento, Ivone Patrão deixa outros conselhos. “Há uma certa dificuldade em termos de comunidade em gerir o mundo digital”, começa por defender. “Regra geral, ficamos muito contentes porque conseguimos oferecer aos nossos filhos tecnologia. Mas temos de oferecer isso com um bom plano de negociação, em termos de número de horas diárias e de conteúdos adequados, e com uma supervisão diária.”

Curiosamente, a psicoterapeuta também aconselha os pais a reservarem um período de tempo para… jogarem com os filhos ou estarem com eles nas redes. “Há uma grande evolução quando os pais se dedicam e se predispõem a isso, até porque passam a conhecer coisas dos filhos que não conheciam. Geram-se partilhas muito giras, muito interessantes.” De resto, anota, os erros e as situações de risco online são quase uma inevitabilidade.

É preciso é encará-las com naturalidade e (dentro do possível) tranquilidade. “Não entrem em conflito. Sentem-se e falem. Pô-los a pensar sobre as coisas é muito importante”, enfatiza a docente do ISPA, recordando ainda que a tecnologia não pode ser a única recompensa para os bons comportamentos. “É preciso pensar em adotar outras estratégias.”

(S)

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