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Little Tomodachi (ともだち)

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29
Dez21

“Swan Song”: o filme que é um grande episódio de “Black Mirror” de puxar à lágrima

Niel Tomodachi

É um drama puro e duro com um brilhante Mahershala Ali no comando — e em dose dupla.

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E se a tecnologia nos desse o dom de podermos evitar a morte? Não da forma mais previsível, mas sim através de um golpe de teatro profundamente altruísta e doloroso? É essa a delicada decisão que Cameron (Mahershala Ali) tem que tomar ao saber que tem poucos meses de vida.

A personagem interpretada pelo vencedor de dois Óscares vive num futuro não muito distante do nosso e guarda um segredo que esconde da família, a mulher Poppy (Naomie Harris) e o filho de oito anos, Cory. Perante um diagnóstico de morte certa, Cameron esbarra numa solução tecnológica e aparentemente ilegal: uma empresa comandada por Jo Scott (Glenn Close), que opera algures num refúgio no meio da natureza, cria cópias perfeitas de pessoas, clones com todas as nossas memórias, anseios e desejos.

Cameron tem apenas que responder a uma questão: quererá substituir-se por uma cópia perfeita e indistinguível de si próprio, de forma a poupar a família à dor do luto? É este o dilema ético e pessoal que está no centro de “Swan Song”, a nova produção da Apple TV que estreou a 17 de dezembro e aposta no talento do jovem realizador irlandês Benjamin Cleary, vencedor do Óscar para melhor curta-metragem de 2015 com “Stutterer”.

Mais do que um filme de ficção, “Swan Song” é predominantemente um drama. A trama foca-se quase exclusivamente no plano sentimental e menos no debate ético e filosófico da criação de cópias humanas perfeitas — e foge sempre a uma análise mais profunda da essência humana. Seremos tão básicos que poderemos ser recriados em laboratório?

O potencial sucesso ou insucesso de semelhante manobra fica sempre por atestar, até porque Scott confessa a certa altura que a cópia de Cameron, a avançar, seria apenas a terceira troca levada a cabo graças a esta tecnologia. A componente de ficção dá um passo atrás para dar lugar a um drama profundo, ocasionalmente capaz de provocar um par de lágrimas.

A narrativa é conduzida através de flashbacks, à medida que a personagem de Mahershala Ali vai transferindo as suas memórias para Jack, nome de batismo da cópia, cuja única diferença física é um pequeno sinal na palma da mão. Aos poucos, é revelada a pitoresca história de amor de Cameron e Poppy, os traumas, as lutas, os momentos felizes.

Tudo se soma à decisão pesada que Cameron tem que tomar em contrarrelógio: a doença avança e ameaça deitar tudo a perder. Assim que a família desconfiar de que algo está errado, a troca não poderá avançar.

Apesar da ocasional leveza do argumento escrito igualmente por Cleary, é na prestação absolutamente envolvente de Mahershala Ali que se esconde o ouro de “Swan Song”, que nos dá uma dose dupla em Cameron e Jack. A interpretação recheada de nuance permite até que encontremos as pequenas diferenças entre o original e o clone, sobretudo nas discussões que são, na verdade, uma consciência singular a debater-se com ela própria.

Os pequenos pormenores funcionam todos a favor de “Swan Song”, da banda sonora discreta e imersiva à fotografia absolutamente deliciosa, passando pela química entre personagens — com especial destaque para a relação entre Cameron e Kate (Awkwafina), a paciente anterior que se torna na sua companhia na isolada casa de montanha onde os condenados à morte esperam penosamente pela sentença da natureza, enquanto os seus clones vivem a sua vida, ao lado dos familiares completamente alheios ao que se passa — mas abençoados (será?) por serem poupados ao luto.

“Swan Song” hesita por vezes no tipo de filme que quer ser. Molha o pé na ficção-científica pura e dura sem se debater com os temas mais complexos, brinca num flirt com o thriller — sobretudo ao deixar pequenas pistas de que as cópias poderão não ser tão perfeitas quanto se julgam —, mas acaba sempre por aterrar no puro drama. Não que seja uma má decisão, mas é o suficiente para transformar o que poderia ser um digno sucessor dos dramas de ficção — à imagem de “Her” — e um dos filmes do ano, apenas num bom e sólido filme.

Mais do que uma longa-metragem com aspirações aos Óscares — a prestação de Ali já deu início às conversas sobre a potencial nomeação —, “Swan Song” tem tudo para ser um enormíssimo e entusiasmante episódio de “Black Mirror”. Algo que dificilmente pode ser tomado como uma crítica.

 

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